Um levantamento realizado pela RP Mobi, empresa responsável pela gestão do trânsito e da mobilidade em Ribeirão Preto (SP), revelou que apenas 32,5% dos pontos de ônibus da cidade oferecem cobertura para os passageiros. Dos 3.057 locais de parada distribuídos pelo perímetro urbano, somente 996 contam com abrigos e assentos. O restante é sinalizado apenas com uma placa de parada, deixando os usuários expostos às variações climáticas.
Infraestrutura insuficiente
A arquiteta e urbanista Cristina Heck avalia que a quantidade atual de abrigos é insuficiente para atender a população com dignidade. "Todo mundo tem o direito de ter um ponto de ônibus coberto por causa do sol e da chuva. É importante ter a cobertura para a pessoa se sentir mais tranquila ao esperar o ônibus chegar", explica a especialista.
Na prática, os passageiros precisam buscar alternativas. Na Avenida Antônia Mugnatto Marincek, zona leste, a aposentada Isabel da Silva, de 69 anos, utiliza a sombra projetada pela placa de sinalização como único refúgio. "Esse ponto já está com mais de dois anos aqui e não tem uma cobertura. Vem chuva, o sol quente, e não é bom", relata.
No bairro Ribeirão Verde, a estudante Joyce Machado e a filha recorrem aos comércios próximos. "Nós ficamos muito tempo aqui, é desconfortável. Estou me abrigando neste estabelecimento comercial por causa do sol, e em dias de chuva e vento forte também", afirma.
Qualidade dos abrigos existentes
Mesmo nos locais com estrutura, a qualidade é alvo de críticas. Na Rua Duque de Caxias, região central, a auxiliar operacional Marina Silva relata que a proteção é ineficiente. "Até as que têm cobertura não seguram a chuva. Conforme o vento e a chuva vêm, a gente se molha", conta. Passageiros acabam sentando nos degraus das lojas.
A manutenção do mobiliário urbano também é comprometida pela ação de vândalos. A arquiteta Cristina Heck reforça a necessidade de conscientização: "A população tem que entender a necessidade de preservar o patrimônio. Se a prefeitura faz algo para beneficiar, aquilo tem que ser preservado".
Problema histórico
A falta de abrigos é um problema antigo na cidade. Em setembro de 2019, uma reportagem da EPTV mostrou que, dos 3.019 pontos de parada existentes na época, 2.104 (quase 70%) não tinham qualquer estrutura básica. Na ocasião, o Consórcio Pró-Urbano, concessionário do transporte até 2032, havia entregue pouco mais de 150 dos 500 abrigos previstos no contrato desde 2012.
Na época, a empresa afirmou que planejava instalar 25 novos abrigos por ano ao longo das duas décadas de concessão. As reclamações dos usuários eram semelhantes às atuais. Na Rua Américo Batista, bairro Jardim Ipiranga, o borracheiro Adilson de Jesus aguardava sem bancos e exposto ao tempo. "É difícil, a gente fica querendo se sentar, descansar. A chuva atrapalha", relatou.
Na Avenida Dom Pedro I, onde alguns pontos tinham o modelo padrão, passageiros se apertavam na calçada nos locais sem cobertura. O pintor Emerson Roberto de Souza resumiu: "Todos os pontos teriam que ter um banco, uma cobertura. É complicado". A dona de casa Auxiliadora Furtado apontava falhas no design dos abrigos: "Teriam que tampar atrás também. Só na frente você molha [quando chove]".
O que dizem os responsáveis
O Consórcio Pró-Urbano informou, em nota, que o serviço de mobiliário urbano é definido exclusivamente pela RP Mobi, e que a empresa apenas executa as ordens de serviço nos locais determinados pelo órgão gestor. A RP Mobi confirmou ser a responsável por fiscalizar e apontar a necessidade de pontos cobertos, mas não explicou o motivo do alto índice de locais sem estrutura. O órgão informou que a administração municipal elabora um plano de modernização para ampliar gradativamente a oferta de abrigos, priorizando locais com maior fluxo de passageiros.
Sobre a falta de limpeza no entorno das paradas, como o mato alto registrado em um ponto na Rua Coronel Camisão, a Prefeitura de Ribeirão Preto declarou tratar-se de uma área particular. O proprietário será autuado para realizar a roçagem, mas não esclareceu se o local receberá um abrigo.



