Cerca de 170 haitianos chegaram ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (SP), nesta quarta-feira (15), em um voo fretado com escala em Manaus (AM). A operação marca a retomada da emissão de vistos para reunião familiar, permitindo a vinda de familiares de refugiados ao Brasil.
Recepção e apoio humanitário
Na recepção do grupo, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) atuou em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo para disponibilizar um mediador intercultural, facilitando a comunicação e o acesso às informações para os recém-chegados. A ACNUR aplicou um questionário para identificar as principais demandas dos haitianos e apoiou a recepção e o transporte das pessoas que desembarcaram em Manaus e Guarulhos, seguindo para outras cidades. O trabalho foi realizado em conjunto com a Associação dos Trabalhadores Haitianos no Amazonas (ATHAM) e a Associação dos Haitianos no Brasil (AHB).
"Como associação, nosso papel é garantir que as pessoas cheguem bem ao destino. Compramos as passagens de ônibus para as outras cidades, damos um prato de comida de boas-vindas, ajudamos a fazer câmbio de dinheiro e compras também. Quem vai para Porto Alegre, nós acompanhamos até a rodoviária ou até a chegada do familiar no aeroporto", explicou Anne Milceus, liderança à frente da Associação dos Haitianos no Brasil (AHB), em nota ao g1.
História de Jeanne-Marie Hippolite
Entre as pessoas que desembarcaram em Guarulhos estava Jeanne-Marie Hippolite, que veio ao Brasil para reencontrar a família, que vive há três anos no Paraná. "Vim para o Brasil porque aqui é mais seguro. Estou feliz porque vou reencontrar minha família depois de tantos anos. Ainda não falo português, então para mim foi muito importante contar com esse apoio na chegada, com pessoas que falam meu idioma, me deram atenção e me passaram informações. Também agradeço o apoio que recebi com o transporte. Acabei de chegar e já me sinto em casa", afirmou à equipe da ACNUR.
Atuação da ACNUR em 2026
Ao longo deste ano, as equipes da ACNUR acompanharam voos que chegaram a Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Foz do Iguaçu (PR), Curitiba (PR), Campinas (SP), Guarulhos (SP), Manaus (AM) e Belém (PA). Além do apoio na recepção e no transporte, o trabalho inclui suporte a casos de proteção de crianças e adolescentes desacompanhados ou separados e encaminhamento de pessoas em situação de maior vulnerabilidade aos serviços públicos.
A oficial de proteção da ACNUR, Silvia Sander, afirma que o trabalho é realizado em conjunto com a Polícia Federal e a Defensoria Pública para identificar crianças e adolescentes haitianos desacompanhados ou separados que precisam de procedimentos especializados de regularização documental e de guarda.
Mediação intercultural
Como os idiomas oficiais do Haiti são o crioulo e o francês, mediadores interculturais treinados e contratados com apoio da ACNUR atuam para facilitar o entendimento das orientações logo na chegada ao país. Em São Paulo, a contratação desses profissionais é feita por meio da Cáritas Arquidiocesana. No Rio Grande do Sul, a ação tem sido feita em parceria com o Serviço Jesuítas para Migrantes e Refugiados (SJMR).
Jude Sam Mondesir mora há 13 anos no Brasil e relembra das próprias experiências quando realiza as mediações. "A língua portuguesa é uma das maiores barreiras para quem chega pela primeira vez ao Brasil. Quando a pessoa encontra alguém que fala o seu idioma, ela se sente mais tranquila, compreendida. Além disso, quem já passou por esse processo entende quais são os medos e as dúvidas que surgem nesse momento. Eu passei bastante dificuldade quando cheguei e hoje consigo superar esses desafios. É importante ter um mediador para ajudar as pessoas a superarem também", explicou.
Crise humanitária no Haiti e nova regra de vistos
Segundo a ACNUR, o Haiti enfrenta uma crise humanitária cada vez mais grave. Estima-se que 6,4 milhões de pessoas necessitem de assistência humanitária, enquanto quase 6 milhões estão à beira da fome. A escalada da violência deslocou internamente quase 1,5 milhão de pessoas, sendo que metade desse total foi deslocada entre agosto de 2024 e março de 2026. Até o final de 2025, mais de 105 mil pessoas haitianas buscavam proteção internacional no Brasil, colocando o país em segundo lugar no número de haitianos em necessidade de proteção fora do Haiti. Até abril de 2026, a população haitiana era a terceira com o maior número de solicitações de refúgio no Brasil.
A retomada dos voos ocorre após mudanças nas regras para emissão de vistos de reunião familiar. Conforme a Resolução Normativa nº 34, de fevereiro de 2026, não é mais necessário manifestar previamente ao Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) a intenção de realizar a reunião familiar. Agora, o pedido deve ser apresentado diretamente ao Ministério das Relações Exteriores.



