Uma ponte suspensa sobre o Rio Paranapanema, na divisa entre Chavantes (SP) e Ribeirão Claro (PR), guarda marcas de um dos episódios mais importantes da história paulista. A Ponte Pênsil Alves de Lima foi palco de batalhas durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Nesta quinta-feira (9) é feriado no estado de São Paulo em memória ao conflito.
O que foi a Revolução Constitucionalista
A Revolução Constitucionalista foi o levante de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, em 1932. Os paulistas exigiam uma Constituição e protestavam contra o interventor imposto pelo governo federal após o fim da chamada "política do café com leite", período em que São Paulo e Minas Gerais alternavam o controle da Presidência da República. O conflito durou cerca de três meses e deixou mais de 600 constitucionalistas mortos nas batalhas, segundo estimativas oficiais.
Chavantes como fronte da revolução
Pela posição geográfica às margens do Rio Paranapanema, na divisa com o Paraná, Chavantes se tornou um dos frontes da revolução. As tropas paulistas chegaram à cidade pelos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana e se instalaram no município para tentar conter o avanço das tropas federalistas vindas do sul. A única escola da cidade na época foi transformada em quartel militar. Os soldados se posicionaram às margens do rio, em alerta para a chegada das tropas inimigas.
A ponte e os ataques com dinamite
Inaugurada em 1920, a Ponte Pênsil Alves de Lima era utilizada para escoar a produção de café do Paraná pelas ferrovias paulistas. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, as tropas sulistas utilizavam a travessia. Por isso, as torres de sustentação da ponte foram bombardeadas com dinamite para dificultar o avanço das tropas federalistas em direção a São Paulo. "Essa ponte, por ser divisa dos estados de São Paulo e Paraná, foi alvo das revoluções. Em 1932, os soldados paulistas ficaram próximos a ela para não deixar os sulistas entrarem. Mesmo assim, eles entraram e chegaram até Chavantes", destaca a pesquisadora Maria Helena Cadamuro.
Pedra da Revolução
As marcas desse período ainda podem ser vistas em pontos da cidade, inclusive em uma pedra às margens do Paranapanema, na qual soldados constitucionalistas gravaram frases do movimento com baionetas. Hoje, o local é conhecido como "Pedra da Revolução" e fica na margem paulista do Rio Paranapanema, próximo à barragem da Usina Hidrelétrica Chavantes. A inscrição diz: "VIVA S. PAULO VIVA O BRASIL. NA BEIRA DO RIO PARANAPANEMA ONDE AO LONGE SE OUVIAM OS RUÍDOS DAS METRALHADORAS, QUE NO TROAR DAS GRANADAS IMITAVAM O GRITO DO IPIRANGA: INDEPENDÊNCIA OU MORTE! ASSIM OS SOLDADOS DA CONSTITUIÇÃO DERRUBARÃO, DE ARMAS NAS MÃOS A NEFAUSTA DITADURA NO CHÃO. 22-09-1932".
Reconstrução e tombamento
Com a estrutura comprometida pelos ataques, a ponte foi reconstruída em 1935. Décadas depois, em 1985, foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) como patrimônio histórico e arquitetônico do estado de São Paulo. Em 2001, o Paraná também a tombou pelo valor histórico e arquitetônico que representa para os dois estados.
Incêndio e recuperação
Em novembro de 2020, um incêndio destruiu parte da estrutura de madeira da ponte. O fogo começou pelo lado paranaense. Na época, a ponte estava prestes a completar 100 anos. Com 149 metros de extensão e 82 metros de vão suspenso, ela havia sido restaurada em 2011 pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), que também construiu, ao lado, uma ponte de concreto para o tráfego de veículos. Após os trabalhos de recuperação, a Ponte Pênsil Alves de Lima foi reaberta para visitação em outubro de 2023.
O feriado de 9 de julho
O 9 de julho é feriado estadual em São Paulo desde 1997, por força da Lei nº 9.497, sancionada pelo então governador Mário Covas. A data marca o início do levante constitucionalista, em 1932. O movimento ganhou força após a morte de quatro manifestantes, em maio daquele ano (Martins, Miragaia, Drausio e Camargo), durante uma manifestação na sede do Partido Popular Paulista. As iniciais dos quatro nomes formaram o movimento MMDC, que teve papel central na mobilização para a luta armada. A revolução perdeu força porque o apoio esperado de outros estados não se concretizou, e as armas encomendadas no exterior não chegaram a tempo. São Paulo se rendeu em outubro de 1932, mas o legado do movimento foi a pressão que contribuiu para a promulgação da Constituição de 1934.



