Parque Trianon na Paulista ganha restaurante até agosto
Parque Trianon terá restaurante na Paulista

O Parque Trianon, principal refúgio verde no coração da Avenida Paulista e um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica do centro expandido de São Paulo, deve ganhar um restaurante até agosto. Previsto no contrato de concessão do parque, o empreendimento é apontado pela Prefeitura de São Paulo e pela concessionária Consórcio Borboletas como parte do processo de requalificação do espaço.

Detalhes da construção

O restaurante está sendo construído ao lado do conjunto arquitetônico da Casa do Administrador, prédio histórico que passa por reforma. O prédio anexo à Casa, sem valor histórico segundo estudos da concessionária, foi demolido. No local, será erguido o restaurante com capacidade para 150 pessoas. A operação ficará a cargo do Grupo Madureira, e o espaço poderá ser acessado durante o horário de funcionamento do parque (6h às 18h).

Segundo o consórcio, a Casa do Administrador será preservada e integrada por meio de um deck de madeira adaptado para acessibilidade. É a primeira reforma do local em mais de 100 anos, e o espaço será aberto à visitação pública – antes, era restrito aos funcionários. O pavimento subterrâneo será convertido em área de serviço e cozinha de apoio. O conjunto somará 418 m² de área construída, correspondendo a menos de 1% dos cerca de 47 mil m² do parque.

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Requalificação do Trianon

A iniciativa faz parte de um plano mais amplo de requalificação, que inclui restauro de monumentos, sanitários, fontes, luminárias, caminhos internos e equipamentos de lazer. Serão restaurados os caminhos de pedra portuguesa, as fontes, o banheiro histórico, as luminárias e os bancos. Os investimentos somam R$ 8 milhões.

A concessionária afirma que a atividade comercial é necessária para garantir o desenvolvimento sustentável da operação. Essas receitas acessórias têm papel essencial para a sustentabilidade econômico-financeira da concessão, permitindo investimentos permanentes em conservação, manejo ambiental, zeladoria e segurança, mantendo o parque público, seguro, limpo e gratuito.

Impacto ambiental

O Trianon abriga cerca de 135 espécies vegetais, oito delas ameaçadas, e é tratado por especialistas como um dos mais importantes refúgios ambientais do centro expandido. Inaugurado em 1892, é reconhecido como patrimônio histórico e paisagístico e considerado um raro fragmento da antiga Mata do Caaguaçu.

O Termo de Compromisso Ambiental (TCA) aprovado pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente autorizou o corte de quatro árvores, com plantio compensatório de 40 mudas de espécies nativas dentro do parque. O consórcio reforça que não há previsão de novas intervenções arbóreas além das já executadas. Cerca de 4.700 exemplares arbóreos são integralmente preservados em todos os 47 mil m² do parque, conforme o plano de manejo aprovado.

Aprovação dos órgãos de patrimônio

A possibilidade de exploração de atividades gastronômicas está prevista no contrato de concessão dos parques, segundo a Prefeitura. A concessionária afirma que o restaurante foi aprovado pelos órgãos de preservação patrimonial: o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) impôs condições técnicas, como o acompanhamento do restauro das madeiras e pinturas murais pelo Departamento de Patrimônio Histórico e submissão dos projetos de iluminação e para-raios. O Iphan avaliou o entorno do Masp, bem federal tombado, e concluiu que a intervenção não oferece impacto ao bem tombado. O Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) deliberou pela aprovação por unanimidade, sem objeções.

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Valor histórico

O Parque Trianon é um dos espaços mais emblemáticos da história paulistana. Inaugurado em 3 de abril de 1892, surgiu como parte do projeto urbanístico de Joaquim Eugênio de Lima para o novo bairro da elite cafeeira. Levantamento da arquiteta Estela Maris Carneiro Alves mostra que o Trianon nasceu como Parque Villon, em referência ao arquiteto paisagista francês Paul Villon. Convites da inauguração registram a existência de um “parque e restaurante da Avenida Paulista”, que funcionou nas primeiras décadas. Defensores do projeto argumentam que a presença de um restaurante possui precedente histórico.

Críticas e reações

A obra provocou reação de parte dos frequentadores. Em carta de repúdio divulgada em maio, integrantes do Conselho Participativo Municipal da subprefeitura de Pinheiros classificam a intervenção como um grave retrocesso ambiental, urbano e institucional. O documento argumenta que a implantação de um equipamento comercial em um dos últimos remanescentes significativos de Mata Atlântica representa descaracterização de um patrimônio ambiental raro. A carta pede suspensão de novas supressões vegetais e ampliação do debate público.

O biólogo Rogério Bertani, que pesquisou a fauna urbana de aranhas em nove parques, incluindo o Trianon, diz que o local exerce função relevante em uma cidade marcada pela impermeabilização do solo, ilhas de calor e poluição. Ele resume: “Estão levando a cidade para dentro do parque”. O Ministério Público de São Paulo foi acionado, mas ainda não se manifestou.

O Consórcio Borboletas afirma que tomou conhecimento do manifesto pelas redes sociais e argumenta que o projeto foi apresentado e debatido com o Conselho Gestor dos parques Trianon e Mário Covas em outubro de 2025. A competência institucional para o acompanhamento das melhorias cabe exclusivamente ao Conselho Gestor, um órgão consultivo e participativo com o qual a concessionária mantém diálogo constante e reuniões mensais. A empresa informa ainda que o projeto foi apresentado aos conselheiros municipais de forma transparente, com croquis, estudos e aprovações, abrindo espaço para o debate com a sociedade.