Como quem não quer nada, Ignacio Aguero filma sua casa, velhas paredes, com jardim imenso, cheio de plantas, vistas em detalhes pela câmera. No telhado, um gato parece brincar de equilibrista. Na narração em off, essa paz, do próprio Aguero, essa relação bucólica, começa a se desfazer. Ele se dirige ao pai e mãe, ambos mortos, e começa a recordar. Entramos no plano da memória e da reflexão.
Memória e História no Chile
Às vezes as imagens coincidem com o que diz a voz off, mas são momentos mais raros. A fala é evocativa, de emoção contida; as imagens dirigem o espectador para outras regiões da emoção. Essa disparidade aparente potencializa o filme. E o que ele diz? Diz muita coisa, mas fala, em especial, da história triste do país. Uma história cortada pelo golpe de Estado de 1973 e uma ditadura das mais sanguinárias da América Latina. Há algo de fantástico na crueldade dos militares chilenos evocada na narração.
Depoimento de um Sobrevivente
Aguero conversa longamente com um líder sindical que conhecera seu pai. Aguero pai era dirigente de uma fábrica na época do golpe de Pinochet. O líder sindical, Marcos Medina, a pretexto de falar do pai de Aguero, acaba falando de si mesmo. De como foi preso, torturado, por fim exilado na Suécia. É uma fala serena, precisa, já filtrada pelo recuo dos anos. Forma uma espécie de centro desse filme na verdade sem centro algum, que se expande em várias direções e nos faz sonhar, pensar, sentir. Está no nível das reflexões fílmicas sobre a ditadura, do também chileno Patricio Guzmán. Ou seja, no nível daquilo que podemos chamar, sem pudor, de obra-prima.
Olhe para Mim: Terror Queer Brasileiro
Olhe para Mim é o primeiro longa-metragem de ficção do alagoano Raphael Barbosa – seu longa anterior é o documentário Cavalo, de 2021. Agora, ele propõe uma jornada de descoberta do seu personagem Marcelo (Ulisses Arthur), cuja vida muda ao conhecer Sandra (Rejane Faria) e Ivan (Luciano Pedro Jr.). O trio põe o pé na estrada, numa rota irreal em que o natural convive com um sobrenatural carregado de símbolos e mitos.
Uma Proposta Indecisa
A proposta é a de um terror queer, mas me parece ficar indeciso na tomada de decisões quanto ao rumo. O desejo, explícito no debate sobre a obra, realizado no dia seguinte à projeção da mesma, era de fazer algo mais acessível, com maior comunicação com o público. Um crítico, elogiando o filme, diz que ele deixa muitos caminhos abertos, que não se fecham numa explicação final, que seria limitativa da abertura da obra. Outros podem pensar diferente.
Obra Aberta e Incomunicabilidade
O conceito de obra aberta, que se deve, como se sabe, a Umberto Eco no livro que leva esse nome, associa a abertura a um certo modernismo, que buscaria a pluralidade de interpretações na própria estrutura do texto (ele fala de literatura, mas dá para adaptar o conceito ao cinema). Mais invenção, menos redundância. Assim, Ulisses, de James Joyce, seria o exemplo máximo de abertura, com um mínimo de redundância. Caso, se se quiser, do ainda mais radical Finnegan's Wake, do mesmo Joyce.
No entanto, ao buscar, explicitamente, como declara, afastar-se da narrativa clássica, Barbosa faz uma aposta arriscada. Não joga propriamente com a subversão da estrutura narrativa, mas a realiza pontuada de uma simbologia e mitologia que não são as 'dominantes', portanto as mais conhecidas da maior parte do público. É totalmente válido e saudável valer-se de um acervo cultural que sofre um processo de apagamento. O preço a pagar talvez seja uma certa incomunicabilidade da obra. Talvez tenha errado a mão, não na receita do bolo, mas na dosagem de alguns ingredientes.



