Em 30 de novembro de 1986, um terremoto de magnitude 5,1 atingiu João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, por volta das 3h da madrugada. O sismo, o maior já registrado no estado e um dos maiores do Brasil, devastou cerca de 4 mil imóveis e deixou aproximadamente 10 mil pessoas desabrigadas, provocando o maior êxodo da história do município. O evento não apenas marcou a memória dos moradores, mas também transformou a trajetória da sismologia brasileira.
O tremor que mudou tudo
Os tremores já eram frequentes desde junho de 1986, mas naquela madrugada não houve tempo para reação. O radialista Josinoi Ferreira, de 60 anos, estava em uma festa na Associação Clube dos Dirigentes Lojistas (ACDB) quando sentiu o chão tremer. "Estava no bar, fui comprar um refrigerante. Quando vi a terra tremendo como se estivesse sendo destruída com compressores, saí imediatamente, fui o primeiro a pular a roleta na ACDB", relatou. O então vereador Osório Avelino, 73, também presente, percebeu que aquele abalo era diferente: "Na hora do abalo, nós ficamos sem luz e sem comunicação. Ninguém tinha coragem de ficar dentro de casa, porque balançou tudo".
A merendeira Francisca Vieira, de 76 anos, já estava em alerta com os sismos anteriores e, naquela noite, havia colocado os dois filhos para dormir. O medo era tanto que muitas noites a família deixava a cidade para dormir em um sítio de parentes.
Falha de Samambaia: a origem dos abalos
O terremoto teve origem na Falha de Samambaia, a maior estrutura geológica ativa do Brasil, que corta os municípios de João Câmara, Parazinho, Poço Branco e Bento Fernandes. Essa fratura nas rochas acumula tensões ao longo de milhões de anos, liberando energia em ondas sísmicas quando a pressão ultrapassa o limite. Segundo o geofísico Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN (LabSis), a sismicidade na região ainda ocorre: "É uma sismicidade que ainda ocorre". Desde junho de 1986, João Câmara registrava uma sequência de tremores, que se prolongou por mais de dez anos, tornando-se a sequência sísmica mais longa já registrada no Brasil.
Impacto na sismologia brasileira
O terremoto de João Câmara foi um divisor de águas para a sismologia no país. O geólogo Joaquim Mendes Ferreira, que acompanhou a situação desde 1983, afirma: "A história é dividida entre antes e depois de Cristo. A sismologia no Brasil, de certa maneira, também é dividida: antes de JC e depois de JC [João Câmara]". O evento alertou a população e os cientistas de que o Brasil não é imune a terremotos. Atraiu pesquisadores de São Paulo, Brasília, Japão, Estados Unidos, Venezuela, Inglaterra e Grécia, transformando o município em um laboratório natural.
O LabSis/UFRN, fundado na década de 1970, tinha atuação focada em relatórios até 1986. Antes do terremoto, apenas três professores integravam o grupo de sismologia. Quarenta anos depois, pelo menos 15 pessoas, entre coordenador, equipe técnica e estudantes, atuam diretamente na área. O técnico Eduardo Alexandre destaca: "É a região que mais demorou registrando tremores, por mais de 10 anos. A evolução sísmica de João Câmara abriu novos caminhos de conhecimento nessa área".
Êxodo e reconstrução
Após o terremoto, muitas famílias viveram em barracas montadas ao lado das casas ou em praças. O ex-prefeito José Ribamar Leite lembra que receberam lonas azuis de uma empresa de São Paulo e lonas pretas do governo, mas estas "esquentavam demais e provocavam queimaduras no povo". Um circo foi transformado em hospital de campanha na praça da Igreja Matriz, com apoio do Exército.
O êxodo foi massivo: dos cerca de 25,8 mil habitantes, aproximadamente 10 mil deixaram a cidade. Josinoi Ferreira contou 250 caminhões de mudança saindo em um único dia: "Isso dava uma dor no coração, eram familiares, amigos, pessoas próximas que a gente não sabia se voltaria a ver". Muitos venderam casas e terrenos por valores abaixo do mercado ou trocaram por alimentos. "Só ficou aqui quem não tinha condições de sair", lembra Osório Avelino, que deixou os pais em Natal e voltou para apoiar a Defesa Civil. "A gente ia nos caminhões entregar comida às pessoas e dava uma vontade de chorar imensa. Era uma cidade fantasma".
Francisca Vieira também deixou a cidade com a família: "As pessoas subiam nos caminhões sem saber para onde iam, só queriam deixar a cidade, era um desespero".
Reconstrução e retorno
A partir de 1987, com a redução dos tremores, a cidade começou a ser reconstruída. Casas foram recuperadas, parte das famílias retornou e o comércio reabriu. Francisca foi uma das que voltou: "João Câmara é a nossa cidade, nossa raiz. Vivi tudo aquilo, mas não aguentei ficar muito tempo longe daqui. Meu esposo nem esperou a ajuda do governo, ele mesmo reformou nossa casa e moramos aqui até hoje".
O último tremor registrado pelo LabSis em João Câmara ocorreu em 19 de fevereiro de 2024, de magnitude 1,7. Segundo especialistas, não há tecnologia para prever terremotos, mas a Falha de Samambaia continua ativa, e um novo grande abalo é possível.



