A Força Aérea Brasileira (FAB) divulga nesta quinta-feira, 23, o relatório final das causas da queda do avião da Voepass em Vinhedo, interior de São Paulo, ocorrida em agosto de 2024 e que matou 62 pessoas. O documento encerra quase dois anos de investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Principais causas de acidentes aéreos no Brasil
Falhas no motor, perda de controle em voo e saídas de pista são os principais motivos de acidentes aéreos no Brasil na última década, segundo o Cenipa. De janeiro de 2016 a julho de 2026, o país registrou 1.644 acidentes aéreos, dos quais 384 foram fatais, com 799 mortes no período.
Cerca de 22% dos acidentes foram causados por falha ou mau funcionamento do motor (366 episódios). A perda de controle da aeronave durante o voo ou desvio de trajetória responde por 19% dos casos (313), mesmo percentual de ocorrências em que a aeronave saiu da pista durante pouso ou decolagem (312).
Fatores contribuintes: julgamento do piloto e uso dos comandos
O Cenipa também analisa fatores que contribuíram para os acidentes – ações ou omissões que, se evitadas, poderiam reduzir a probabilidade do desastre. O julgamento inadequado do piloto é o aspecto mais frequente, presente em 29% dos casos, seguido por erro no uso dos comandos da aeronave (20%). A identificação desses fatores não implica responsabilização civil ou criminal dos profissionais.
As investigações não buscam um culpado, mas sim formular recomendações de segurança para evitar novos episódios. Consideram desde condições climáticas até fatores psicológicos da tripulação.
Relatório parcial aponta falhas de pilotos, Voepass e Anac
Um relatório parcial do Cenipa, revelado pela Folha de S. Paulo e confirmado pelo Estadão, indicou que a queda foi causada por um conjunto de falhas dos pilotos, da empresa e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo a versão preliminar, a Voepass ignorou falhas de segurança, e o Cenipa identificou contexto organizacional deficiente na empresa, que tolerava desvios e desprezava alertas, como problemas no sistema de degelo detectados em voos anteriores.
O documento parcial também apontou “distração” dos pilotos durante o voo, com conversas informais em procedimentos críticos. Em relação à Anac, o relatório diz que a agência não foi capaz de mitigar riscos, apesar de fiscalizações apontarem ausência de padrões técnicos na manutenção das aeronaves da companhia.
Relembre o acidente
O voo partiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP). No início da tarde de 9 de agosto de 2024, o ATR-72-500 da Voepass caiu em Vinhedo, matando 62 pessoas – quatro tripulantes e 58 passageiros. O avião despencou 13 mil pés (4 mil metros) em dois minutos: estava a 17 mil pés às 13h20 e a 4 mil pés às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido. O impacto ocorreu no quintal de uma casa em um condomínio residencial.
O piloto Danilo Santos Romano havia comentado sobre falha no sistema de degelo, conforme relatório preliminar do Cenipa de 6 de setembro de 2024. Foram registrados alertas de baixa velocidade e desempenho degradado devido ao acúmulo de gelo.
Posicionamento das autoridades
A Anac afirma exigir e fiscalizar normas de segurança conforme padrões internacionais, incluindo treinamentos e certificação. O Ministério de Portos e Aeroportos defende a concessão de aeroportos para garantir investimentos em infraestrutura e segurança, além de programas de capacitação e linhas de financiamento para troca de frota. A FAB reitera que é responsável apenas pelas investigações, com objetivo de prevenir novos acidentes.
Procurada, a Voepass não se manifestou ao Estadão, mas afirmou à Folha que não comentaria os apontamentos e que segue colaborando com as autoridades.
Recomendações após desastre da TAM em 2007
Após a queda do voo da TAM em 2007, que matou 199 pessoas em Congonhas, o Cenipa recomendou: a Anac deveria intensificar fiscalização e exigências para pistas molhadas; a Infraero deveria implementar áreas de escape; a TAM deveria melhorar treinamento de tripulações; e a Airbus deveria melhorar sinalizações sobre equipamentos com erros.



