Após o desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari em Sena Madureira, interior do Acre, estudantes que residem no Segundo Distrito da cidade e precisam chegar ao colégio localizado na outra margem do Rio Iaco estão utilizando uma canoa como meio de transporte. O estudante Rikelmi Costa de Souza, de 18 anos, gravou o trajeto em um vídeo que rapidamente se espalhou pelas redes sociais. Nas imagens, é possível observar a pequena embarcação transportando cerca de 10 alunos, sem o uso de coletes salva-vidas.
“Indo para a escola pela primeira vez depois que a ponte que liga com o restante da cidade caiu. Gente, minha casa fica perto da ponte e vamos atravessar [o rio] de catraia”, afirma no vídeo. Rikelmi desce até o porto e aguarda a embarcação completar a travessia com outros estudantes e retornar à margem oposta. “Enquanto isso, ficamos aqui no sol quente esperando a catraia chegar”, relata.
No restante da gravação, o estudante filma outros alunos embarcando e a água entrando na canoa. “A canoa é igual uma cachoeira, só entrando água”, diz em tom bem-humorado. Rikelmi conta que aprendeu a nadar desde pequeno e não teme que a canoa inunde. No entanto, nem todos os alunos sabem nadar. “É perigoso para eles e ainda mais porque ninguém utiliza coletes durante a travessia”, completou.
Canoa disponibilizada
Após o incidente, o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre) contratou uma catraia para garantir o deslocamento de moradores entre o Segundo Distrito e o Centro de Sena Madureira. Segundo o Deracre, a embarcação opera em caráter emergencial, das 6h às 21h, com o apoio de três funcionários para auxiliar no embarque e desembarque dos usuários. Além dos estudantes, trabalhadores, produtores rurais e famílias que dependiam da ponte podem continuar a se deslocar.
Além dos pedestres, os demais condutores podem utilizar a estrada Mário Lobão como rota alternativa, considerada segura pelo Detran. Outra opção de passagem é a ponte metálica José Nogueira Sobrinho, conhecida como pontilhão, também permitida para motoristas.
Desmoronamento da ponte
A ponte Frei Paolino Baldassari foi interditada na última quinta-feira (4) devido ao risco de desabamento às margens do Rio Iaco. Inaugurada há dois anos e meio, a estrutura custou mais de R$ 36 milhões. Ela desabou na noite de sexta-feira (5) com quatro pessoas sobre ela. Imagens de câmeras de segurança registraram o desabamento e as pessoas que ultrapassaram o bloqueio.
A Polícia Civil confirmou a instauração de um inquérito para apurar as causas do desabamento, com previsão de conclusão em 30 dias. O delegado-geral da Polícia Civil, Pedro Paulo Buzolin, confirmou que peritos do município já realizaram uma perícia preliminar no local. O Ministério Público do Acre (MP-AC) também instaurou um procedimento para investigar o acidente e solicitou ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) uma perícia na área para identificar possíveis falhas no projeto, execução ou materiais.
Medidas emergenciais
A Justiça do Acre deferiu parcialmente as medidas do governo que pedem a responsabilização da Construtora Cidade Ltda, responsável pela obra. A decisão determina que a empresa adote medidas emergenciais para proteção da população e mitigação de riscos, sob pena de multas diárias de R$ 200 mil em caso de descumprimento. As ações foram julgadas durante o plantão judicial de sábado (6). A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e o Deracre entraram com duas medidas judiciais no sábado para assegurar a responsabilização da empresa.
A Construtora Cidade Ltda informou ao g1 que as rachaduras na ponte foram identificadas há uma semana por uma equipe técnica da empresa, que recomendou a suspensão da passagem de veículos e pedestres. Cerca de uma semana antes do desabamento, foram identificadas movimentações no solo e rachaduras em uma área de mais de 16 mil metros quadrados no entorno da estrutura. A empresa encaminhou ao Deracre, na quinta-feira (4), uma recomendação para interdição da ponte. A construtora atribui o acidente ao fenômeno de terras caídas, comum na região amazônica, que ocorre pelo colapso ou erosão acelerada das margens dos rios.



