Estudo revela alta contaminação por mercúrio em indígenas do Oiapoque, no Amapá
Contaminação por mercúrio atinge indígenas no Amapá

Um estudo inédito conduzido no final de 2024 pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), em colaboração com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (Dsei), revelou elevados índices de contaminação por mercúrio entre povos indígenas do município de Oiapoque, localizado no extremo norte do Amapá. A pesquisa analisou 192 amostras de cabelo de indígenas pertencentes às etnias Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali'na, que residem na região.

Resultados alarmantes

Os resultados indicaram que metade dos indivíduos apresentou níveis iguais ou superiores a 6,0 mg/kg de mercúrio, considerado um índice elevado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa concentração está associada a sérios riscos à saúde, incluindo danos neurológicos, complicações durante a gestação e sintomas de intoxicação como tremores, insônia, perda de memória e alterações motoras.

Como ocorre a contaminação

De acordo com especialistas, o mercúrio utilizado em garimpos ilegais contamina os rios da região e, consequentemente, os peixes que constituem a base alimentar das comunidades indígenas. O consumo frequente desses peixes aumenta a exposição ao longo da vida, o que explica os índices mais altos entre pessoas acima de 50 anos.

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Dados por faixa etária

O levantamento detalhou os resultados por faixa etária:

  • 10 a 20 anos: 14 coletas, 7% com níveis elevados
  • 21 a 30 anos: 46 coletas, 54% com níveis elevados
  • 31 a 40 anos: 55 coletas, 42% com níveis elevados
  • 41 a 50 anos: 43 coletas, 60% com níveis elevados
  • 51 a 60 anos: 24 coletas, 75% com níveis elevados
  • 61 anos ou mais: 10 coletas, 40% com níveis elevados
  • Total: 192 coletas, 50,5% com níveis elevados

Diferenças por gênero

A pesquisa também mostrou que os homens apresentam níveis elevados de mercúrio em mais de 60% dos casos, enquanto entre as mulheres esse percentual é de 38,37%. No entanto, as mulheres em idade fértil são motivo de preocupação, pois 31,37% delas têm níveis de mercúrio acima do limite seguro, o que pode representar sérios riscos ao desenvolvimento do feto em caso de gravidez.

Preocupação das comunidades

Os resultados foram apresentados às comunidades durante a Assembleia da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM). A presidente da organização, Janina Karipuna, expressou sua preocupação: “As consequências da contaminação pelo mercúrio atingem a todos, não só aqueles que estão no garimpo. Todos saímos prejudicados. Por isso é importante ainda fazer novos testes e ampliar a discussão sobre isso nas nossas terras”.

Necessidade de políticas públicas

O estudo reforça a necessidade urgente de políticas de saúde e fiscalização ambiental para conter os impactos da contaminação. Além dos povos indígenas, toda a população que consome peixes da bacia amazônica pode estar exposta. Segundo o Iepé, levantamentos anteriores já haviam identificado mercúrio no pescado vendido em feiras e mercados da região Norte.

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