O desejo de formar uma família levou o casal homoafetivo Priscila Émika e Maíra Faria, de Divinópolis, a um longo processo de planejamento e à decisão pela fertilização in vitro, que resultou na chegada de dois filhos: Gaia, de 2 anos, e Apolo, nascido em abril de 2026. Em homenagem ao Dia Internacional do Orgulho LGBT+, celebrado em 28 de junho, o g1 conta a trajetória do casal, que oficializou a união há exatamente dois anos.
Encontro e decisão pela maternidade
Priscila e Maíra se conheceram em novembro de 2016, durante uma confraternização organizada por amigos em comum. O encontro aconteceu por acaso: Maíra interrompeu uma viagem por causa da chuva e decidiu participar da reunião. Naquela noite, as conversas foram poucas, mas suficientes para despertar o interesse. No dia seguinte, Maíra pediu o telefone de Priscila a uma amiga e, a partir daí, começaram a conversar e a sair juntas. O relacionamento evoluiu e, alguns anos depois, surgiu o desejo de ampliar a família.
Curiosamente, o primeiro passo aconteceu antes mesmo da maternidade, quando adotaram uma gatinha chamada Málaga e perceberam que gostavam de compartilhar os cuidados e responsabilidades. Depois vieram outros animais de estimação e, com eles, a certeza de que estavam prontas para um novo capítulo. "Entendemos depois de compartilhar cuidados com nossos animais, que estava na hora de darmos um passo diferente", lembrou Priscila.
O caminho até a maternidade
O desejo de ter filhos não surgiu ao mesmo tempo para as duas. Enquanto Maíra sempre soube que queria ser mãe, Priscila inicialmente não tinha esse plano. Com o passar dos anos, a ideia amadureceu. Ao mesmo tempo, o casal passou a considerar fatores como a idade e o tempo necessário para uma possível adoção. Segundo elas, a fila para adoção de bebês poderia levar cerca de cinco anos. Como Maíra também tinha o desejo de vivenciar a gestação, a fertilização in vitro acabou sendo a alternativa escolhida.
No entanto, com a decisão veio o maior desafio: o financeiro. "O tratamento exige um planejamento muito grande. Tivemos que nos organizar bastante para conseguir realizá-lo", contaram. A escolha de quem gestaria o bebê foi simples: além de sempre desejar passar pela experiência da gravidez, Maíra foi a única opção possível, já que Priscila não possui útero em decorrência de um problema de saúde. O tratamento durou cerca de quatro meses, desde a escolha do sêmen até a transferência do embrião, com resultado positivo logo na primeira tentativa.
Duas gestações e a chegada dos filhos
Embora as duas gestações tenham transcorrido sem intercorrências, o período foi marcado pela ansiedade natural de quem espera a chegada de um filho. A primeira a transformar o sonho em realidade foi Gaia, hoje com 2 anos, que trouxe ao casal a experiência da maternidade e inaugurou uma nova rotina dentro de casa. Durante toda a jornada, Priscila e Maíra destacaram a importância do acompanhamento médico e do suporte emocional. A experiência foi tão positiva que, dois anos depois, decidiram ampliar a família. Em abril de 2026 nasceu Apolo, fruto da segunda gestação.
Duas mães, uma criação compartilhada
A rotina da família é organizada de forma colaborativa. Não existe uma divisão rígida de tarefas. Como Maíra sai mais cedo para trabalhar, Priscila costuma levar Gaia para a escola. Já Maíra geralmente é responsável por buscá-la no fim do dia. Em casa, as funções se alternam entre preparo das refeições, organização da rotina, brincadeiras, banho e hora de dormir. "Vai acontecendo naturalmente. Não temos funções fixas", explicaram.
Gaia chama as duas de forma carinhosa: Mamãe P. e Mamãe M. Desde cedo, a filha cresce sabendo que sua família é formada por duas mães. "Sempre mostramos que existem diferentes tipos de família. Ela fala naturalmente que tem duas mães e não tem papai", contou Maíra. Para o casal, tratar o assunto com naturalidade é a melhor forma de construir um ambiente de acolhimento e segurança para os filhos.
Avanços e desafios
Embora afirmem não ter enfrentado episódios diretos de preconceito, Priscila e Maíra acreditam que ainda há um caminho a ser percorrido para que diferentes configurações familiares sejam plenamente compreendidas pela sociedade. "A gente percebe que existem muitas dúvidas e questionamentos. Nem sempre são falas preconceituosas, mas muitas vezes as pessoas ainda estão aprendendo a lidar com novas formas de família".
Na prática, elas também enfrentaram alguns obstáculos burocráticos. Após o nascimento dos filhos, o registro não pôde ser realizado diretamente no posto de atendimento instalado no hospital. Foi necessário comparecer ao cartório principal e apresentar documentação adicional da clínica responsável pela fertilização in vitro para comprovar a origem do tratamento. Apesar disso, elas reconhecem os avanços conquistados nos últimos anos. "Poder nos casar no civil e registrar nossos filhos com o nome de duas mães representa uma mudança muito importante", destacou Maíra.
Um orgulho que também passa pela família
No Dia Internacional do Orgulho LGBT+, Priscila e Maíra afirmaram que celebrar a data ganhou um significado ainda mais profundo após a formação da família. Além de marcar a luta histórica por direitos e reconhecimento, o 28 de junho também representa uma lembrança pessoal, já que foi o dia em que oficializaram a união. "É difícil descrever a emoção que representa tudo o que construímos desde que nos conhecemos", pontuou Maíra.
Para outros casais homoafetivos que sonham em ter filhos, elas deixam um conselho baseado na própria experiência. "Busquem ajuda o quanto antes, se organizem financeiramente e tenham acompanhamento psicológico. E, principalmente, confiem na relação, porque ela será colocada à prova em vários momentos da jornada". Ao resumirem a história que construíram juntas, a definição vem em poucas palavras, mas carrega o significado de anos de amor, planejamento e conquistas: "Família PMGA, porque amor não tem tamanho".



