O Festival Folclórico de Parintins, um dos maiores espetáculos a céu aberto do mundo, completa quase seis décadas de tradição. Nos bastidores, porém, a grandiosidade atual carrega a memória de um tempo em que a festa se sustentava pelo amor e pela doação. Em 2026, a disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido ocorre nos dias 26, 27 e 28 de junho, na ilha do interior do Amazonas. O g1 conversou com dois artistas veteranos que vivenciaram a chamada "era de ouro" do festival, na década de 1990, para entender as mudanças na confecção das alegorias e na projeção da rivalidade.
Trabalho por amor e o choro na saída do galpão
Cirene Maria Barros Penha, 64 anos, soma 32 anos de dedicação ao boi-bumbá. Atualmente no Garantido, onde atua há 15 anos na decoração de alegorias, ela foi a primeira cunhã-poranga do Caprichoso, quando o posto era conhecido como "rainha das tribos". Ela relembra com nostalgia as dificuldades dos anos 1990, quando os grandes patrocinadores ainda não ditavam o ritmo. "A gente começou e não tinha tanto patrocinador. Então a gente trabalhava mesmo por amor, se doava. Eu saía da minha casa às 7h e só voltava, às vezes, no outro dia. Tínhamos que apresentar as coisas e não havia muito recurso", afirma. A emoção de ver o trabalho na arena permanece: "Quando vejo o trabalho saindo do galpão, já quero chorar. Quando a gente vê o trabalho concluído, se sente de alma lavada". Cirene também trabalha há 12 anos no carnaval de São Paulo pela escola Águia de Ouro. Para ela, figuras como Arlindo Júnior e Juarez Lima deixaram legados eternos. Ela destaca a religiosidade do festival: "Toda Alvorada eu tenho que entregar a promessa. Tenho que chegar na catedral com o boi e ajoelhar lá junto com ele. Não é uma festa profana, é o dom que Deus deu para a gente".
Das ferramentas simples ao 'padrão Caprichoso'
Do outro lado de Parintins, no reduto azul e branco, o artista plástico Nildo Costa, 52 anos, testemunha a mesma passagem de tempo. Com 32 anos de experiência no Boi Caprichoso, ele é um dos nomes mais antigos em atividade no setor de módulos alegóricos. Nildo iniciou em 1993 e acompanhou a transformação técnica das alegorias, que evoluíram de estruturas simples para gigantescos módulos tecnológicos. Ele afirma que o Caprichoso ficou conhecido pela grandiosidade: "O Caprichoso tem uma palavra que é muito bonita: padrão. Padrão Caprichoso. Isso já é uma identidade nossa. O público pode esperar um espetáculo", projeta, otimista para a disputa deste ano.
Últimos ajustes na concentração
A menos de uma semana do 59º Festival Folclórico de Parintins, a concentração do Bumbódromo virou um grande ateliê a céu aberto. Equipes dos bois Caprichoso e Garantido aceleram o ritmo para finalizar as alegorias que prometem surpreender o público nas três noites de apresentações. Pintura, ajustes, iluminação e efeitos especiais ocupam centenas de profissionais, que vivem a mistura de ansiedade e expectativa. A era de ouro dos anos 1990, marcada pela explosão nacional das toadas com nomes como Arlindo Júnior, Klinger Araújo e David Assayag, contrasta com a realidade de superação e poucos recursos financeiros da época, mas o amor pela festa permanece como motor dos artistas.



