IA é a nova roda: ferramenta neutra, caráter é do usuário
IA é a nova roda: ferramenta neutra, caráter é do usuário

Havia um sujeito na mesa ao lado do café, desses que transformam qualquer gole de espresso em palestra do TEDX. Exibia no celular um vídeo sobre os males da inteligência artificial enquanto, ironia das ironias, a tecnologia que ele condenava lhe servia outro filminho igual antes que ele terminasse a frase.

Da pedra à carroça: a resistência à inovação

Lembrei-me da idade da pedra. Meia dúzia de brucutus arrastava um urso pela pata, convencida de que o sofrimento era parte indispensável do transporte. Até aparecer um outro com uma roda presa a uma carroça. O urso seguia elegante, deslizando sobre a carreta, enquanto os demais suavam como se o sacrifício fosse um patrimônio cultural.

A reação, naturalmente, foi de escândalo. Não faltou quem decretasse que aquilo não era transporte de verdade. Que a roda desumanizava o esforço. Que o urso precisava sentir o peso da tradição. Pois é, sempre existe aquele sacerdote disposto a canonizar o desconforto. Afinal, toda inovação nasce como heresia. E depois vira eletrodoméstico.

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A rápida adoção e o esquecimento das certezas

Tempos mais tarde, cada um tinha sua carroça. Os antigos críticos discutiam apenas o diâmetro da roda. A memória humana é uma fábrica de conveniências: esquece depressa o ridículo das próprias certezas.

É curioso observar como a inteligência artificial ocupa hoje o lugar da velha roda. Muitos ainda a tratam como o prenúncio do apocalipse intelectual. Outros a vendem como se fosse a reencarnação de Albert Einstein com assinatura mensal. Nem uma coisa, nem outra. Ferramentas não possuem caráter. Quem o empresta é a criatura que as opera. E o problema nunca foi a roda, mas o carroceiro.

A industrialização do conteúdo e os veteranos resistentes

Vejo influenciadores anunciando que produziram cinquenta textos antes do almoço. Coaches prometendo multiplicar talento por meio de prompts, igualzinho a alquimistas vendendo chumbo a preço de ouro. É fato: o conteúdo virou um produto industrial, embalado para consumo rápido, com prazo de validade inferior ao do iogurte.

Os veteranos, por sua vez, repetem o ritual de toda geração envelhecida. Confundem experiência com monopólio. Juram defender a qualidade quando, muitas vezes, defendem apenas o próprio crachá de senioridade. É um direito compreensível. Também já desconfiei de novidades que hoje uso sem cerimônia. A idade não elimina o preconceito; apenas lhe dá mais vocabulário.

Progresso e responsabilidade

Sim, a inteligência artificial é a nova roda. Uns irão mais longe. Outros apenas espalharão a própria mediocridade com maior eficiência. O progresso é rápido. O ridículo acompanha.

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