Um grupo de cientistas da Microsoft publicou um estudo abrangente que analisa o sistema de inteligência artificial GPT-4 sob a ótica da psicologia experimental, investigando a presença de comportamentos inteligentes tipicamente humanos. O trabalho, intitulado "Sparks of Artificial General Intelligence: Early experiments with GPT-4", busca responder a uma questão fundamental: até que ponto sistemas como o GPT-4 podem ser considerados verdadeiramente inteligentes?
O desafio de definir inteligência
Uma das principais dificuldades enfrentadas por desenvolvedores de inteligência artificial é a ausência de uma definição clara e universal do que é inteligência. Atribuímos inteligência a um cão que busca uma bola, a uma planta que cresce em direção à luz, a Einstein e a um campeão mundial de xadrez, mesmo que este seja facilmente derrotado por programas de computador. Sem uma definição precisa, como avaliar se sistemas como ChatGPT ou GPT-4 atingiram algo semelhante à inteligência humana?
Psicólogos que estudam a inteligência humana enfrentam o mesmo problema. Para contorná-lo, eles se concentram em comportamentos observáveis que representam o que chamamos de inteligência. Ao investigar como crianças desenvolvem a capacidade de entender o mundo, lidar com números, aprender a falar e desenvolver o pensamento lógico, foi construída uma lista de comportamentos e capacidades mensuráveis que caracterizam a inteligência.
GPT-4 sob a lente da psicologia experimental
A inovação do estudo da Microsoft é aplicar essa mesma abordagem ao GPT-4. Os pesquisadores trataram o sistema como um psicólogo experimental trataria um rato ou uma criança, tentando identificar se comportamentos inteligentes rudimentares já emergem no modelo. Diferentemente de programas tradicionais, que são construídos a partir de uma lista pré-definida de tarefas (como Excel, Waze ou Shazam), sistemas de IA como o GPT-4 são treinados com enormes quantidades de dados produzidos pela humanidade e não são programados diretamente para tarefas específicas.
O objetivo é realizar uma espécie de engenharia reversa: assimilar todo o conhecimento humano e tentar deduzir como ele foi produzido, simulando a inteligência que o gerou. Surpreendentemente, esses sistemas se tornam capazes de executar tarefas para as quais não foram explicitamente programados — fenômeno conhecido como propriedades emergentes. Essas propriedades incluem a capacidade de entender e escrever em português, programar em código, emitir opiniões, especular e até errar como humanos.
Experimentos e resultados
O estudo descreve uma série de experimentos que avaliam diferentes aspectos da inteligência. Por exemplo, quando solicitado a criar uma figura de um dinossauro usando uma linguagem de programação que gera formas geométricas, o GPT-4 produziu um desenho reconhecível. Em outra tarefa, perguntou-se como fazer uma pilha estável usando um livro, 9 ovos, um laptop, uma garrafa e um prego; o sistema forneceu um passo a passo detalhado.
No campo das capacidades espaciais, o GPT-4 foi capaz de desenhar a planta de um apartamento a partir de uma descrição textual de um passeio pelo imóvel. Os experimentos também incluíram testes de interação humana (explicar e justificar respostas), habilidades matemáticas (resolver equações) e outros indicadores usados para caracterizar a inteligência humana. Apesar dos sucessos, muitas limitações e falhas foram identificadas, o que deve orientar futuros aperfeiçoamentos do sistema.
Conclusão: lampejos de inteligência geral
Os autores concluem que o GPT-4 já exibe muitas características da inteligência humana específica e, mais importante, alguns lampejos do que os cientistas chamam de inteligência geral. Isso sugere que estamos nos aproximando de sistemas verdadeiramente inteligentes, capazes de realizar uma ampla gama de tarefas cognitivas de forma flexível.



