Confiança dos brasileiros em IA cresce, mas proteção de jovens ainda é frágil
Confiança em IA cresce, mas proteção de jovens é frágil

Os brasileiros estão confiando mais na inteligência artificial, e seu avanço está acelerado nas classes D e E, onde o conhecimento dessas ferramentas cresceu mais rapidamente. Ainda assim, a confiança continua sendo um privilégio de renda, pois quanto maior a classe social, maior a percepção de segurança. A questão é saber se estamos popularizando a IA mais rapidamente do que conseguimos compreender e regular seus riscos.

Confiança na inteligência artificial avança, mas desigualdades persistem

Essas são algumas das conclusões do Índice Reglab, levantamento divulgado nesta quinta-feira (30). O estudo mostra também que a proteção de adolescentes segue sendo o ponto mais frágil da economia digital, sendo a dimensão com menor percepção de segurança e a que mais sofre desigualdade de confiança, sobretudo entre classes sociais e entre homens e mulheres.

A pesquisa ouviu 1.103 pessoas adultas conectadas à Internet entre 15 e 30 de junho de 2026. Foram avaliadas 24 plataformas distribuídas entre redes sociais, streaming e entretenimento, economia de plataforma (aplicativos de transporte), inteligência artificial e governo digital. O índice mede percepção e conhecimento declarado, não frequência de uso.

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“Visibilidade pública e confiança não se movem necessariamente no mesmo ritmo”, explica Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab. “Leis, campanhas e grandes eventos podem colocar um tema na agenda, mas a confiança parece depender mais da experiência cotidiana, se o serviço funciona, se a pessoa se sente protegida e se percebe respostas concretas quando algo dá errado.”

Avanço do conhecimento nas classes D e E

A confiança na inteligência artificial aumentou 3,1 pontos percentuais entre os participantes acompanhados nas duas ondas da pesquisa (a primeira aconteceu há três meses). Paralelamente, o conhecimento sobre essas ferramentas cresceu de 79% para 84% entre as classes D e E, o maior avanço registrado entre todos os grupos sociais e categorias analisadas.

“A inteligência artificial está se tornando parte do repertório cotidiano de grupos sociais mais amplos”, sugere Thaís Palanca, uma das autoras do estudo. “Isso não significa que as barreiras de acesso ou uso foram superadas, mas mostra que a categoria já não circula apenas entre públicos especializados.”

Proteção de adolescentes é o ponto mais frágil

No caso da proteção de adolescentes, há uma diferença de 8,6 pontos percentuais entre as classes A/B e C/D-E, além de as mulheres perceberem quase 6 pontos percentuais a menos nesse quesito que os homens. Essa diferença reflete exposição real, e não um medo abstrato. Entre as mulheres, a hipótese é o papel de cuidado historicamente atribuído a elas, que acompanham mais de perto a vida digital de filhos e, por isso, percebem os riscos com mais clareza. Sobre as classes mais baixas, o estudo atribui isso a desigualdades estruturais de acesso, recursos e mediação qualificada, que se repetem em todas as dimensões da pesquisa.

Apesar dos avanços regulatórios, como o ECA Digital, os grupos mais vulneráveis ainda não percebem melhorias concretas na proteção oferecida pelas plataformas, tornando essa dimensão o principal desafio para empresas e formuladores de políticas públicas. “Isso não significa que a lei seja irrelevante, mas sua implementação ainda está no início, com regulamentação e monitoramento em curso”, justifica Ramos. “Qualquer implementação que ignore essas diferenças sociais corre o risco de produzir direitos formais sem gerar proteção percebida”, acrescenta.

Desafios para políticas públicas e plataformas

Campanhas publicitárias recentes da OpenAI e do Google podem estar ajudando a construir confiança em torno da IA antes mesmo de o debate público sobre seus riscos chegar às classes sociais que mais aderem à tecnologia. Por isso, estudos como esse deveriam deixar de ser apenas um retrato da percepção dos brasileiros para se tornar um indicador permanente para políticas públicas e de responsabilidade das plataformas, acompanhado com prioridade entre mulheres e a população de menor renda, onde a sensação de proteção permanece mais baixa.

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Levar a inteligência artificial à base da pirâmide é sem dúvida um avanço, desde que inclusão digital não signifique apenas acesso, mas também compreensão. Sem alfabetização crítica, transparência e mecanismos de proteção, a IA pode ampliar assimetrias de informação e expor justamente os mais vulneráveis a novos riscos. Por isso, governos e plataformas deveriam adotar metas públicas de redução das desigualdades por renda e gênero, acompanhadas por indicadores específicos e ações integradas com escolas e serviços de saúde, entre outros.

O Brasil já possui um arcabouço legal robusto e boa capacidade tecnológica, mas não tem ainda um pacto de proteção que altere a experiência cotidiana de quem mais desconfia dos recursos digitais. “Plataformas, governo e reguladores, escolas, academia, sociedade civil e a própria mídia deveriam se reunir em torno de compromissos que, a meu ver, precisam contemplar o letramento digital como prioridade, não apenas como uma política de governo, mas como um grande projeto de Estado”, afirma Ramos.

Estamos entrando em um momento em que o maior desafio das tecnologias digitais deixará de ser conquistar novos usuários para conquistar confiança. Essa tarefa não será cumprida apenas por algoritmos mais sofisticados ou por novas leis, mas por experiências concretas de segurança, transparência e responsabilidade. Empresas, governo e sociedade civil precisam agir de forma coordenada para caminhar nessa direção.