A presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Kirsty Coventry, anunciou nesta quinta-feira uma nova política de teste de gênero que determina a elegibilidade de atletas na categoria feminina. A medida, que entra em vigor a partir dos Jogos de Los Angeles 2028, proíbe mulheres trans de competirem em eventos oficiais do COI.
Teste único do gene SRY define elegibilidade
Cada atleta poderá realizar o teste que detecta a presença do gene SRY (Sex-determining Region Y) apenas uma vez na vida. O gene atua como desencadeador do desenvolvimento masculino. Resultados negativos comprovam a elegibilidade para a categoria feminina, sem necessidade de novos exames. Caso o resultado seja positivo, não haverá segunda chance.
"Como ex-atleta, acredito veementemente no direito de todos os atletas olímpicos de participar de competições justas. A política que anunciamos tem base científica e foi elaborada por especialistas médicos. Nos Jogos Olímpicos, mesmo as menores diferenças podem significar a diferença entre a vitória e a derrota. Portanto, está absolutamente claro que não seria justo que homens biológicos competissem na categoria feminina", declarou Coventry.
Base científica e estudos com mais de 1100 participantes
O COI afirma que a decisão foi baseada em evidências científicas, lideradas pela diretora de saúde e ciência do COI, Jane Thornton. Uma pesquisa com mais de 1100 pessoas, entre atletas e ex-atletas, homens e mulheres, foi realizada para embasar a política. "Havia nuances em relação à forma como isso se aplicaria em termos de sexo, gênero, região e status do atleta, mas houve também um forte consenso de que a justiça e a segurança na categoria feminina exigiam regras de elegibilidade, e que proteger a categoria era uma prioridade comum", explicou Thornton.
O rastreamento do gene SRY é feito por métodos menos invasivos, como coleta de saliva ou sangue. O COI considera que a presença do gene é fixa ao longo da vida e representa evidência altamente precisa de desenvolvimento sexual masculino.
Exceções e possibilidade de recurso
A política abre exceção apenas para atletas com diagnóstico de Síndrome de Insensibilidade Total aos Andrógenos (CAIS) ou portadores de diferenças raras no desenvolvimento sexual (DSDs), desde que não tenham benefícios com efeitos anabólicos ou melhoria de desempenho com testosterona. Atletas ainda podem recorrer à Corte Arbitral do Esporte (CAS).
Coventry afirmou que o trabalho em parceria com Jane Thornton foi bem-sucedido e espera que a política una a todos: "Sempre que há políticas, regras e regulamentos em vigor, sempre haverá alguém que queira contestá-los. O que posso dizer e o que espero que as pessoas percebam, ao acompanhar Jane passo a passo, que realmente fizemos um trabalho extremamente bom ao considerar as opiniões de todos e reuni-las para elaborar um documento que, espero, unirá a todos".
Contexto: Trump já havia banido atletas trans nos EUA
Em fevereiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proibiu atletas transgêneros de competirem em eventos escolares, universitários e profissionais no país, que sediará os Jogos de 2028. Trump assinou a lei "Keeping Men Out of Women's Sports" e afirmou que não permitiria a participação de atletas trans em Los Angeles.
A participação de mulheres trans nas Olimpíadas foi discreta até hoje. Em Tóquio 2021, Laurel Hubbard tornou-se a primeira atleta abertamente transgênero a competir, no levantamento de peso feminino.
Reação da ANTRA
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) se posicionou contra a nova política, classificando-a como excludente e retrógrada. Em nota, a associação afirmou: "A história do esporte já mostrou como a biologia foi manipulada para legitimar desigualdades, excluir corpos dissidentes e reforçar hierarquias. Hoje, o que se apresenta como 'proteção' ao esporte feminino ignora, de forma conveniente, os reais desafios enfrentados pelas mulheres no esporte: a falta de investimento, de reconhecimento, de segurança e de condições dignas de permanência. A decisão não apenas reforça estigmas, como também reativa mecanismos ultrapassados como os testes de gênero, marcados por violações, constrangimentos e ausência de critérios éticos consistentes".



