USP encontra microplásticos e poluentes em águas profundas da Bacia de Santos
USP acha microplásticos e poluentes em águas profundas

Um estudo do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) detectou microplásticos e poluentes orgânicos persistentes (POPs) em sedimentos, peixes e invertebrados coletados em águas profundas da Bacia de Santos, entre 400 e 1.500 metros de profundidade. As amostras foram obtidas durante duas expedições a bordo do navio oceanográfico Alpha Crucis, utilizando equipamentos para retirar porções intactas de sedimentos e redes de arrasto para capturar peixes e invertebrados.

Poluentes encontrados em sedimentos e peixes

No laboratório, os pesquisadores analisaram sedimentos e peixes em busca de duas categorias de POPs: bifenilas policloradas (PCBs), usadas como isolantes elétricos, e éteres difenílicos polibromados (PBDEs), retardantes de chamas. Esses compostos têm longa duração no ambiente e se acumulam nos organismos. Nos sedimentos, apenas PCBs foram detectados. Já no conteúdo digestivo dos peixes, ambas as classes foram encontradas em quatro espécies: Parasudis truculenta, Coelorinchus marinii, Hoplostethus occidentalis e Neoscopelus macrolepidotus.

O orientador do estudo, Paulo Sumida, coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução de Mar Profundo, destacou em nota do Governo de São Paulo que o mar profundo, apesar do difícil acesso e alto custo de pesquisa, precisa ser monitorado. “A presença de microplásticos e poluentes persistentes mostra parte do impacto das atividades humanas e como este ambiente não está tão distante das pessoas como se pode pensar”, afirmou Sumida.

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Microplásticos em invertebrados

Para os invertebrados, o foco foi a presença de microplásticos (fragmentos com menos de cinco milímetros). Foram encontrados poliamida, poliacrilonitrila (usados na indústria têxtil), poliariletercetona, poliestireno (plásticos resistentes) e polissulfeto (borracha sintética). A presença de polissulfeto levantou a suspeita de contaminação pela indústria offshore, já que cinco plataformas atuam na Bacia de Santos e outras seis estão previstas para 2027, segundo o governo estadual.

Gabriel Stefanelli-Silva, primeiro autor do estudo, realizado com bolsa da Fapesp, ressaltou que a descoberta é importante para entender a ocorrência desses poluentes. “O maior desafio, porém, é determinar a origem dos compostos, já que tanto microplásticos quanto POPs são transportados na atmosfera, e como eles impactam a fauna de profundidade”, disse Stefanelli-Silva.

Organismos detritívoros e filtradores, como o pepino-do-mar (Deima validum), são especialmente propensos a ingerir microplásticos. Entre as nove espécies de invertebrados analisadas, o pepino-do-mar apresentou a maior quantidade de microplásticos no sistema digestório.

Protocolo e publicação

Para evitar contaminação das amostras, os pesquisadores seguiram um protocolo rigoroso, incluindo uso de roupas e instrumentos sem fibras sintéticas. O estudo foi publicado no Marine Pollution Bulletin por pesquisadores do IO-USP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Ele integra o projeto “Diversidade e evolução de peixes de oceano profundo (Deep-Ocean)”, apoiado pela Fapesp no âmbito do Programa Biota, coordenado por Marcelo Roberto Souto de Melo, professor do IO-USP e coautor do trabalho.

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