Um novo estudo publicado na revista Nature revela que a sucralose, um dos adoçantes artificiais mais populares, pode modular negativamente a resposta das células T quando consumida em doses extremamente altas. A pesquisa, conduzida em camundongos, abre caminho para possíveis usos terapêuticos em doenças autoimunes, mas reforça a segurança do consumo humano nas doses habituais.
O que é a sucralose e como funciona
A sucralose é um adoçante sintético derivado da sacarose (açúcar comum), no qual três átomos de hidrogênio-oxigênio são substituídos por cloro. Essa modificação a torna cerca de 600 vezes mais doce que o açúcar, permitindo que quantidades muito menores sejam usadas para obter o mesmo sabor. Diferentemente do açúcar, a sucralose não é metabolizada pelo corpo humano: aproximadamente 85% é excretada nas fezes sem ser absorvida, e a pequena fração absorvida é eliminada pela urina.
Por ser amplamente estudada e considerada segura, agências reguladoras dos Estados Unidos e da Europa aprovaram seu uso, estabelecendo uma ingestão diária aceitável (IDA) de 5 a 15 miligramas por quilo de peso corporal. Para uma pessoa de 80 kg, isso equivale a cerca de 800 mg de sucralose por dia. Considerando que cada envelope de adoçante contém aproximadamente 12 mg, seria necessário consumir 66 envelopes diariamente para atingir esse limite.
O estudo em camundongos
Pesquisadores alimentaram camundongos com a dose máxima recomendada de sucralose durante três meses, adicionando o composto à água. Um grupo de controle recebeu água pura. Os cientistas concentraram-se nos efeitos sobre o sistema imunológico, especialmente nas células T, um tipo de linfócito essencial para a defesa contra infecções e tumores.
Os resultados mostraram que, em condições normais – sem desafio ao sistema imune – a maioria dos parâmetros imunológicos não foi alterada pela sucralose. No entanto, quando o sistema imune foi desafiado (por infecção intestinal, células estranhas de transplante ou tumores), a ativação das células T foi retardada. A sucralose, em doses elevadas, alterou a estrutura da membrana das células T, dificultando a entrada de cálcio necessária para sua ativação. Esse efeito foi específico para as células T.
Implicações para a saúde humana
Os autores do estudo enfatizam que os efeitos observados ocorreram apenas em doses muito altas nos camundongos, e que esses resultados ainda não foram replicados em humanos. Portanto, o consumo de sucralose como adoçante, nas doses habituais, continua sendo considerado seguro. “A sucralose, nas doses que é consumida como adoçante, continua a ser muito segura”, afirmam os pesquisadores.
No entanto, a descoberta abre uma perspectiva interessante: o uso potencial da sucralose em altas doses como medicamento para doenças causadas por ativação exagerada do sistema imune, como doenças autoimunes (ex.: diabetes tipo 1) e na prevenção de rejeição em transplantes. No mesmo estudo, camundongos predispostos ao diabetes tipo 1 tratados com altas doses de sucralose tiveram o aparecimento da doença retardado.
Conclusão: remédio ou veneno?
“Esse é mais um exemplo do velho ditado que diz que a dose é o que separa o remédio do veneno”, comenta o biólogo Fernando Reinach, autor do artigo original que divulga a pesquisa. Enquanto o uso de sucralose em baixas doses como adoçante é seguro e não prejudica o sistema imune, doses elevadas podem ser benéficas para modular respostas imunes exacerbadas. O estudo, publicado na Nature (DOI: 10.1038/s41586-023-05801-6), sugere que a sucralose pode vir a ser uma ferramenta terapêutica no futuro, mas mais pesquisas em humanos são necessárias.



