Um estudo publicado na revista Neuron em janeiro de 2023 derrubou uma das teorias mais estabelecidas sobre a base biológica do amor. Cientistas produziram uma linhagem de ratos da pradaria (Microtus ochrogaster) sem receptores para oxitocina — o chamado “hormônio do amor” — e descobriram que os animais continuam formando casais estáveis, cuidando dos filhotes e exibindo comportamentos afetivos normais.
O modelo animal do amor monogâmico
Os ratos da pradaria são um dos poucos mamíferos que formam paços vitalícios, comportamento raro na natureza. Eles convivem em casais estáveis, colaboram na criação dos filhotes e raramente trocam de parceiros. Essa semelhança com os humanos fez deles o modelo preferido para estudar os mecanismos do amor.
Até agora, acreditava-se que a oxitocina, um hormônio produzido no hipotálamo e liberado pela glândula pituitária, era essencial para esse comportamento. A oxitocina é conhecida por seu papel no parto (induz contrações uterinas), na amamentação (libera leite) e no aumento da empatia. Em experimentos anteriores, bloquear o receptor de oxitocina com drogas fazia os ratos perderem o vínculo de casal e o cuidado parental.
O experimento que mudou tudo
Usando técnicas de edição genética, a equipe de pesquisadores criou ratos da pradaria que não possuíam o gene do receptor de oxitocina em nenhuma célula do corpo. A expectativa era que esses animais se comportassem como se não tivessem oxitocina — ou seja, menos amorosos, infiéis e com problemas reprodutivos.
Para surpresa geral, os ratos sem receptor continuaram formando casais monogâmicos, exibindo contato físico, cooperando na criação dos filhotes e adotando filhotes órfãos. As fêmeas deram à luz normalmente e amamentaram, embora produzissem menos leite, resultando em filhotes com crescimento mais lento e menor peso final.
Implicações para a ciência do amor
“Esse simples experimento pôs abaixo a teoria de que a oxitocina e seu receptor seriam suficientes para explicar o comportamento amoroso desses animais”, afirmam os autores. A descoberta sugere que existem mecanismos compensatórios ou vias alternativas no cérebro que podem assumir o papel do receptor ausente.
Os pesquisadores destacam que a oxitocina ainda pode ser importante, mas o amor é um fenômeno muito mais complexo do que se imaginava. O estudo força uma revisão das teorias construídas ao longo de décadas sobre a base hormonal do vínculo social.
O que isso significa para os humanos?
Embora o estudo tenha sido feito em roedores, ele levanta questões sobre a universalidade do papel da oxitocina em humanos. A oxitocina continuará sendo chamada de “hormônio do amor”, mas o amor, como qualquer pessoa que já se apaixonou sabe, vai muito além de uma única molécula.
Mais informações: Oxytocin receptor is not required for social attachment in prairie voles. Neuron, 2023. DOI: 10.1016/j.neuron.2022.12.011



