Um grupo de cientistas criou um método para distinguir trabalhos científicos disruptivos de incrementais, baseado em um índice de disruptividade. Aplicado a 45 milhões de artigos publicados entre 1945 e 2010, o estudo revelou que a fração de descobertas disruptivas caiu entre 95% e 99% em todas as áreas da ciência.
O que são descobertas disruptivas e incrementais?
Descobertas disruptivas, como a de Galileu de que a Terra gira em torno do Sol, mudam radicalmente a visão de mundo. Já as incrementais adicionam conhecimento sem transformar paradigmas, como a descrição de novas espécies. Embora menos glamorosas, as descobertas incrementais são a base para as disruptivas. Charles Darwin, por exemplo, apoiou-se em séculos de observações incrementais para formular a Teoria da Evolução.
Como funciona o índice de disruptividade?
O índice analisa como um trabalho é citado cinco anos após sua publicação. Se é citado sozinho, ignorando referências anteriores, é disruptivo. Se é citado junto com trabalhos prévios, é incremental. A equipe calculou esse índice para cada um dos 45 milhões de artigos, em todas as áreas, usando bancos de dados de citações.
Resultados mostram queda drástica
A disruptividade média caiu entre 95% e 99% em 60 anos. No entanto, o número absoluto de trabalhos disruptivos manteve-se constante (alguns milhares por ano), enquanto a produção total cresceu quase dez vezes. Isso significa que o aumento da produção científica deveu-se exclusivamente a trabalhos incrementais.
Possíveis causas
As razões incluem a avaliação de cientistas baseada na quantidade de publicações, a preferência de agências financiadoras por projetos de baixo risco e a aversão ao risco. O estudo sugere que o sistema atual favorece a ciência incremental em detrimento da disruptiva.
Impacto e iniciativas
Agora, duas questões se impõem: o aumento de trabalhos incrementais é saudável? E como incentivar projetos disruptivos? Na Europa e EUA, agências financiadoras já atacam o problema. No Brasil, o Instituto Serrapilheira financia apenas projetos com potencial disruptivo, enquanto a Fapesp avança timidamente.
O estudo foi publicado na revista Nature em 2023, com o título "Papers and patents are becoming less disruptive over time".



