Cientistas transformam mosca sexuada em reprodutora por partenogênese
Mosca sexuada vira partenogenética em laboratório

Cientistas descobriram os genes envolvidos na partenogênese facultativa e conseguiram transformar uma mosca que só utilizava a reprodução sexuada em um animal que pratica a partenogênese. A pesquisa, publicada na revista Current Biology, mostra que pequenas alterações na expressão de apenas dois genes são suficientes para mudar a estratégia reprodutiva.

O que é partenogênese?

A partenogênese é um mecanismo alternativo de reprodução no qual o óvulo da fêmea se desenvolve em um filhote sem a contribuição de um espermatozoide. Embora a maioria dos animais utilize a reprodução sexuada, uma minoria de espécies recorre à partenogênese, especialmente quando há dificuldade em encontrar um parceiro sexual. Na partenogênese facultativa, presente em alguns répteis, aves e peixes, a fêmea adota esse método quando a disponibilidade de machos é baixa.

A partenogênese dispensa o gasto de energia na busca por parceiros e é mais rápida, mas não produz a diversidade genética obtida pela combinação dos genes paternos e maternos. Essa desvantagem faz com que a seleção natural favoreça a reprodução sexuada na maioria das espécies.

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O experimento com Drosophila

Os pesquisadores utilizaram a Drosophila mercatorum, que possui duas linhagens: uma que se reproduz exclusivamente por via sexuada e outra que pratica partenogênese facultativa. Ao sequenciar o genoma das duas linhagens, identificaram genes expressos de forma diferente nos óvulos das fêmeas de cada linhagem.

Em seguida, pegaram a Drosophila melanogaster (a mosca-da-fruta), que só se reproduz sexuadamente, e modificaram seu genoma para se assemelhar ao da linhagem partenogenética. Descobriram que bastava aumentar a expressão do gene polo e diminuir a do gene Desat2 para que a D. melanogaster se tornasse capaz de partenogênese facultativa. A ativação de um terceiro gene, Myc, aumentou significativamente a fração de fêmeas que praticavam a partenogênese.

Implicações da descoberta

Segundo os autores, a descoberta demonstra que um pequeno grupo de genes controla a opção pela partenogênese facultativa, e que pequenas alterações nos níveis de proteínas são suficientes para mudar a estratégia reprodutiva. Isso explica por que algumas espécies recorrem a esse mecanismo quando os machos são escassos ou em novos ambientes. "Por partenogênese, basta um animal para formar toda a população em uma ilha", destacam os pesquisadores.

O próximo passo será investigar se em mamíferos, como camundongos, o mecanismo é igualmente simples. Se for, teoricamente, no futuro, a partenogênese poderia ser usada para procriação humana, embora nunca tenha sido detectada em seres humanos. O relato do nascimento de Jesus, caso comprovado, seria um exemplo de partenogênese, mas não há evidências científicas disso.

Contexto evolutivo e cultural

Na espécie humana, o desejo sexual é essencial para a reprodução sexuada, tendo gerado mecanismos culturais como bailes de debutantes e aplicativos de namoro (Tinder). A partenogênese facultativa, se existisse em humanos, poderia alterar profundamente a sociedade, mas por enquanto é apenas uma especulação. Os cientistas alertam que, mesmo que a técnica seja viável em mamíferos, questões éticas e biológicas precisariam ser amplamente discutidas.

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