Leitor de mentes: IA decodifica pensamentos com ressonância
Leitor de mentes: IA decodifica pensamentos

Cientistas desenvolveram o sistema de leitura de mente mais avançado já criado, capaz de traduzir pensamentos em palavras com impressionante precisão. Utilizando ressonância magnética funcional e inteligência artificial, o sistema monitora a atividade cerebral e a converte em frases. Embora não seja perfeito, o resultado é surpreendente e levanta questões sobre a privacidade do pensamento humano.

Como funciona o sistema

O voluntário deita-se em um equipamento de ressonância magnética funcional, similar aos usados em hospitais para obter imagens do corpo. A diferença é que ele detecta a quantidade de oxigênio no sangue que circula em cada milímetro cúbico do cérebro ao longo do tempo, produzindo um filme da atividade cerebral. Quando os neurônios estão ativos, consomem mais oxigênio, reduzindo o nível no sangue; quando repousam, o nível volta ao normal. Assim, o filme mostra quais áreas do cérebro estão ativas ou inativas a cada momento.

Experimentação com podcasts

Três voluntários deitaram na máquina com fones de ouvido e, por 16 horas, ouviram uma série de podcasts. Durante todo esse tempo, a atividade neuronal de cada microrregião do cérebro foi registrada. Cada vez que a pessoa ouvia uma frase, a máquina registrava as áreas cerebrais ativas. Ao final, os cientistas tinham um filme de 16 horas de atividade cerebral e a trilha sonora correspondente. Esses dados foram usados para treinar um sistema de inteligência artificial capaz de correlacionar padrões de atividade cerebral a frases. O resultado é um software decodificador que transforma cada padrão de atividade cerebral em palavras ou frases.

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Decodificando pensamentos imaginados

De posse do decodificador, os cientistas pediram aos voluntários que imaginassem narrativas. Enquanto imaginavam as frases, a máquina registrava a atividade cerebral e submetia o filme ao decodificador, que tentava deduzir o que estavam pensando. Por exemplo, se o voluntário imaginava “preciso tirar minha carteira de motorista”, o decodificador poderia exibir “ainda não aprendi a dirigir”. O resultado não é perfeito, mas é impressionante como o sistema consegue não só descobrir o que os voluntários pensavam, mas colocar em palavras esses pensamentos.

Além das palavras: imagens e filmes mudos

Para surpresa dos cientistas, o decodificador consegue descrever pensamentos que envolvem imagens ou filmes mudos. Se o voluntário vê uma foto de uma menina, o sistema escreve “menina” na tela. Isso ocorre porque ao ver a imagem, o cérebro ativa regiões semelhantes às ativadas quando a pessoa ouve a palavra “menina”. O sistema é capaz de decodificar não apenas pensamentos verbais, mas também visuais.

Implicações éticas e de privacidade

Esse experimento mostra que estamos próximos de deduzir o que se passa na mente de uma pessoa observando quais áreas do cérebro estão ativas. Em teoria, no futuro, uma pessoa não precisará nos contar o que está pensando ou sentindo; bastará observar sua atividade cerebral. As implicações morais e éticas são enormes. Hoje, nossos pensamentos só podem ser descobertos por outra pessoa se os relatarmos. Esse reduto de privacidade pode deixar de existir. O sistema poderia ser usado em interrogatórios policiais, substituindo polígrafos, ou mesmo em sessões de tortura. No entanto, os sistemas ainda são imprecisos e os decodificadores são específicos para cada pessoa – o decodificador construído para um voluntário não funciona em outro.

Conclusão

O mais impressionante é que estamos começando a entender como a mente é produzida pelo cérebro. A pesquisa foi publicada na Nature Neuroscience sob o título “Semantic reconstruction of continuous language from non-invasive brain recordings” (doi:10.1038/s41593-023-01304-9). Embora a tecnologia ainda esteja em estágio inicial, ela representa um avanço significativo na interface cérebro-máquina e na compreensão da cognição humana.

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