Um estudo inovador demonstrou que é possível identificar descendentes vivos de escravos americanos do século XIX por meio da comparação de genomas antigos com bancos de dados genéticos modernos. Pesquisadores analisaram ossadas de 27 escravos enterrados no cemitério da fornalha de Catoctin, em Maryland, e cruzaram seu DNA com mais de 9,2 milhões de genomas de clientes da empresa 23andMe. O resultado: parentes distantes, em média cinco a seis gerações depois, foram encontrados na população atual.
O que aconteceu na fornalha de Catoctin?
A fornalha de Catoctin foi construída em 1774 e operada por mão de obra escrava até 1850, produzindo artefatos de ferro como armas e ferraduras. Quando morriam, os escravos eram enterrados em um cemitério no próprio local. Após a desativação da fornalha em 1903, o cemitério permaneceu esquecido até que uma equipe de cientistas localizou 27 ossadas, extraiu o DNA e sequenciou seus genomas.
Como o DNA foi comparado?
Os genomas antigos foram comparados com 9.255.493 genomas de clientes da 23andMe, uma empresa californiana que oferece análise genética por US$ 129. O serviço identifica ancestralidade, predisposições a doenças e até características como tipo de cera de ouvido. Com autorização, a empresa também compara genomas entre clientes para encontrar parentescos. Atualmente, mais de 10 milhões de pessoas já tiveram seu genoma analisado pela 23andMe.
Parentesco em média de 162 anos
Os cientistas estimaram que, em média, 162 anos separam os escravos analisados dos clientes vivos no banco de dados — o equivalente a cinco ou seis gerações. Por isso, não esperavam encontrar filhos, netos ou bisnetos diretos. No entanto, foram identificadas muitas pessoas com parentesco distante, seja como descendentes diretos dos escravos ou como descendentes de parentes dos escravos que viveram na África por volta de 1700.
“Esse número sobe para 4,25% entre os americanos afrodescendentes vindos da África subsaariana”, destaca o estudo. No total, apenas 0,45% das pessoas no banco de dados possuem alguma relação genética com os escravos de Catoctin. Um dos escravos analisados é um possível trisavô de uma pessoa viva; outros três são tios e primos separados por três ou quatro gerações.
Impactos éticos e futuros
Por enquanto, os cientistas não notificaram as pessoas identificadas sobre seu possível parentesco com os escravos. A equipe ainda decide como comunicar a descoberta, que pode ser motivo de orgulho para alguns e um choque para outros. O estudo, publicado na revista Science em 2023, aponta que, com o crescimento de bancos de dados genéticos como o da 23andMe, será cada vez mais comum detectar relações genéticas entre vivos e ancestrais distantes. “É mais uma maneira de conhecermos nosso passado”, concluem os autores.



