Como encontrar mais alegria no tempo livre, segundo Harvard
Como encontrar mais alegria no tempo livre, segundo Harvard

Pesquisas sugerem que, para ter uma vida satisfatória, é preciso sentir regularmente três coisas: realização (reconhecimento ou sensação de conquista), propósito (conexão com algo maior do que você mesmo) e alegria (felicidade ou emoções positivas) no momento presente. Como você está em cada uma dessas áreas?

Para muitos profissionais ambiciosos que estudamos, a resposta costuma variar de razoável a excelente nas duas primeiras, mas é claramente insuficiente na terceira. Enquanto realização e propósito frequentemente surgem naturalmente do trabalho e da família, experiências de alegria tendem a ser raras e passageiras.

O caso de Maria e Tim

Considere Maria, sócia de uma empresa de private equity, casada e mãe de três filhos. (Observação: todos os nomes deste artigo são pseudônimos.) Às 9h de um dia comum, ela já respondeu a e-mails, revisou relatórios e acompanhou os filhos na saída para a escola. Até o meio-dia, terá conduzido várias reuniões, tomado decisões importantes, tentado encaixar uma conversa de mentoria e organizado o transporte compartilhado das crianças por mensagens. À noite, fechará o notebook e deixará o celular de lado para jantar com a família e colocar os filhos para dormir, mas depois voltará ao trabalho por mais algumas horas. Os colegas se impressionam com sua capacidade de equilibrar tudo. Ainda assim, embora sua agenda pareça contemplar todo tipo de atividade produtiva e obrigação, não sobra espaço para espontaneidade ou prazer.

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Tim tem uma história semelhante. Sócio sênior de uma consultoria de primeira linha, ele passou duas décadas totalmente focado em superar as expectativas de clientes e colegas. Ao mesmo tempo, foi um marido e pai dedicado, observando que “nada supera a sensação de ser necessário em casa”. Tanto na vida pessoal quanto na profissional, sente-se realizado e movido por um propósito. No entanto, entre as longas jornadas de trabalho, as frequentes viagens exigidas pelo cargo e os aspectos mais rotineiros da paternidade — ajudar nas tarefas escolares e levar os filhos de um lado para outro — ele também tem dificuldade para encontrar momentos de felicidade genuína.

Por que a alegria é tão difícil?

Por que a alegria — esse terceiro pilar da satisfação com a vida — é tão difícil de alcançar para tantas pessoas? O tempo é parte da resposta. Em um estudo recente realizado com profissionais muito ocupados — 1.500 ex-alunos da Harvard Business School com carreiras em tempo integral e famílias —, descobrimos que eles dedicavam, em média, 50 horas por semana ao trabalho e 12 horas a responsabilidades fora dele. Depois de descontar sono, alimentação, higiene e deslocamentos, restavam apenas 26 horas semanais — pouco mais de três horas por dia — para todas as atividades de livre escolha.

Ao analisar as atividades dos participantes, descobrimos, sem grande surpresa, que as pessoas sentiam mais alegria no tempo livre do que no trabalho ou quando realizavam tarefas domésticas, faziam compras, pagavam contas e cuidavam rotineiramente dos filhos. Porém — e isso é importante — a forma como utilizavam essas horas extras era mais relevante do que a quantidade de horas disponíveis. Em outras palavras, alguns participantes eram muito melhores do que outros em encontrar alegria durante seu limitado tempo de lazer.

Mesmo assim, quase todos tinham espaço para melhorar. Independentemente de terem 2 ou 40 horas livres por semana, frequentemente não aproveitavam esse tempo da melhor forma. (A pessoa mediana passava apenas 10 das 26 horas livres semanais — pouco mais de uma hora por dia — em atividades que lhe traziam alegria.)

Embora nosso estudo inicial tenha focado um grupo específico, confirmamos que esse padrão aparece em uma amostra mais ampla de profissionais. Ao priorizar tarefas de trabalho e de casa que proporcionam realização e propósito, as pessoas frequentemente negligenciam atividades que lhes trazem alegria. No entanto, os seres humanos precisam dos três elementos — ao longo de toda a vida — para se sentirem verdadeiramente satisfeitos.

Cinco estratégias para encontrar mais alegria

Então, o que fazer? Ao analisar como os profissionais que encontravam alegria conseguiam isso, identificamos cinco estratégias principais que podem ajudá-lo a aproveitar melhor o tempo que possui.

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1. Relacione-se com outras pessoas

Segundo as pesquisas por trás do Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, que acompanhou centenas de homens por mais de 75 anos, o maior indicador de satisfação com a vida são relacionamentos fortes e significativos com pessoas acolhedoras e apoiadoras. Seja pelo conforto dos laços familiares ou pelo companheirismo das amizades, essas conexões dão sustentação às pessoas e proporcionam um sentimento de pertencimento.

Em nosso estudo, também descobrimos que experiências compartilhadas ampliam a alegria. Quando os participantes realizavam qualquer atividade de lazer acompanhados, ela quase sempre parecia mais agradável (e quase nunca menos agradável) do que quando a faziam sozinhos. Vale destacar que isso geralmente era verdadeiro tanto para extrovertidos quanto para introvertidos. Caleb, por exemplo, relatou que assistir à televisão sozinho frequentemente o deixava vazio e sem energia, enquanto fazer isso com a família fortalecia os vínculos e gerava assuntos para conversas.

Claro, passar o tempo livre com outras pessoas pode trazer complicações. Como explicou Omar, outro participante com uma agenda extremamente cheia: “A coordenação e o planejamento costumam exigir mais tempo. Há e-mails e mensagens. Precisamos fazer reservas ou, se eles vierem à nossa casa, planejar um cardápio. Investimos três vezes mais tempo do que investiríamos para comer sozinhos.” Também existem benefícios em ficar sozinho: a solidão permite reflexão e relaxamento, que igualmente aumentam o bem-estar. Ainda assim, nossos resultados sugerem que os benefícios da convivência superam os custos.

2. Evite passatempos passivos

Depois de um longo dia buscando propósito e realização no trabalho ou em casa, é natural querer descansar. Para muitos — de idosos a profissionais em meio de carreira e jovens na faixa dos vinte anos — isso significa lazer passivo: jogar-se no sofá, ligar a televisão ou ficar rolando as redes sociais.

Mas nossa pesquisa — e um volume crescente de evidências — sugere que esse hábito pode estar prejudicando as pessoas. Segundo uma meta-análise de 12 estudos independentes realizada por Christopher Wiese, Lauren Kuykendall e Louis Tay, atividades físicas realizadas no tempo livre estão consistentemente associadas a melhor humor e maior satisfação com a vida. Ampliando essa descoberta, nossa própria pesquisa mostra que, quando as pessoas passam tempo sozinhas, obtêm mais alegria com atividades ativas — como exercícios físicos, hobbies e trabalho voluntário — do que com cochilos, televisão, videogames ou aplicativos sociais. Em média, atividades ativas realizadas sozinho receberam nota 2,4 em uma escala de alegria de 0 a 3, enquanto as passivas receberam 1,7. Além disso, quanto mais tempo os indivíduos dedicavam a atividades ativas, mais satisfeitos estavam com suas vidas; quanto mais tempo passavam em atividades passivas, menos satisfeitos se sentiam.

Considere Taylor, uma executiva de uma empresa de investimentos, que costumava jogar videogame ou assistir a esportes depois do trabalho e das responsabilidades familiares. Quando passou a usar esse tempo para participar de uma partida semanal de futebol com amigos — combinando atividade física e interação social — sentiu-se renovada e cheia de energia.

Novamente, não há problema em desligar a mente, relaxar e descomprimir de vez em quando. Mas, quando o lazer passivo se torna o padrão e elimina oportunidades para atividades mais prazerosas, é hora de considerar uma mudança.

3. Siga sua paixão

A alegria no tempo livre surge naturalmente quando esse tempo continua sendo realmente livre — sem obrigações, expectativas sociais ou pressão para fazer o que é considerado “bom para você”. Pesquisas, incluindo os trabalhos de Richard Ryan e Edward Deci, demonstram consistentemente que a autonomia — a capacidade de fazer escolhas alinhadas aos próprios valores — é fundamental para o bem-estar.

Por exemplo, um estudo realizado por Meera Padhy e colegas com adolescentes e jovens adultos concluiu que a motivação intrínseca (envolver-se em atividades porque elas são gratificantes por si mesmas) é um forte indicador de satisfação com a vida. Seja jardinagem, confeitaria ou videogames, o importante é escolher o que você gosta, e não o que os outros consideram “válido”.

Nossa pesquisa mostra que, embora algumas atividades (como exercícios físicos ou voluntariado) aumentem o bem-estar de todos, em média seus benefícios ficam muito atrás daqueles obtidos por meio das atividades que cada pessoa valoriza mais. Atividades alinhadas ao que você considera pessoalmente gratificante aumentam sua satisfação com a vida quatro vezes mais do que atividades consideradas benéficas para a maioria das pessoas. Em resumo, seguir seu coração no tempo livre é o caminho mais poderoso para a realização pessoal.

Veja o caso de Sophie, que durante anos tentou encontrar algum trabalho manual que combinasse com ela porque todos diziam que era uma ótima forma de relaxar. Tentou tricô, crochê, bordado e até tecelagem, mas nenhuma dessas atividades lhe trouxe muita alegria; apenas a mantinham ocupada. Então, em um fim de semana, reorganizou espontaneamente os armários e a despensa da cozinha e ficou surpreendentemente feliz. Descobriu que sua alegria não vinha do artesanato, mas de etiquetar potes, organizar temperos e criar espaços bonitos e organizados. Embora os amigos brinquem com esse hobby peculiar, Sophie percebeu que abraçar sua verdadeira paixão por organização a deixa muito mais feliz do que seguir modismos de lazer.

4. Diversifique suas atividades

Dada a importância de seguir sua paixão, você pode pensar que deveria dedicar todo o tempo livre a uma única atividade profundamente satisfatória. No entanto, um estudo de Frode Stenseng e Joshua Phelps encontrou uma relação negativa entre dedicação excessiva a hobbies e sucesso em várias áreas da vida, como trabalho e relacionamentos familiares.

Nossos resultados vão um passo além e sugerem que, quanto mais tempo uma pessoa dedica a uma única atividade de lazer, menos alegria ela proporciona. Existe, na verdade, um ponto de saturação: passar horas demais em uma atividade pode começar a reduzir seus benefícios. O que aumenta a felicidade não é a profundidade, mas a variedade, talvez porque ela evita a monotonia e mantém as experiências interessantes e estimulantes. Por exemplo, um estudo de Jordan Etkin e Cassie Mogilner demonstrou que a variedade de atividades impede a adaptação hedônica — processo pelo qual a exposição repetida ao mesmo estímulo reduz seu impacto ao longo do tempo.

Considere Jeremy, que durante a pandemia descobriu um novo interesse: o xadrez. O que começou como uma exploração casual de um aplicativo rapidamente se transformou em uma dedicação intensa e absorvente. Logo ele passava muitas horas competindo e deixava o jogo dominar suas noites. Pior ainda: o hobby já não o fazia particularmente feliz. Foi necessário reduzir o tempo dedicado ao xadrez e redistribuir parte do lazer para exercícios físicos e encontros com amigos para voltar a encontrar alegria no jogo.

5. Proteja seu tempo

Como o trabalho é uma fonte de propósito e realização (e até de alguma — embora pouca — alegria) para a maioria dos profissionais ambiciosos, eles frequentemente permitem que ele invada seu tempo livre.

Mas pesquisas há muito tempo destacam os riscos do excesso de trabalho, mostrando sua associação com mais problemas de saúde e menor bem-estar. Estudos de Sabine Sonnentag e outros pesquisadores também descobriram que o “desligamento psicológico do trabalho”, ou seja, a capacidade de se desconectar mentalmente das demandas profissionais fora do expediente, melhora o bem-estar e até aumenta o engajamento no trabalho.

Em nosso estudo, observamos que cada hora adicional dedicada ao trabalho por semana reduzia a sensação geral de alegria na vida. Por outro lado, quando essa hora era usada para atividades de lazer, como hobbies, exercícios físicos, encontros com outras pessoas ou refeições com amigos e familiares, os participantes relatavam maior felicidade.

Jane, desenvolvedora sênior em uma empresa de design, adorava seu trabalho, tinha muito orgulho de sua dedicação à organização e, durante anos, acreditou que trabalhar mais horas era a chave para o sucesso e a satisfação pessoal. Mas, quando foi incluída em uma grande rodada de demissões, foi obrigada a repensar como usava seu tempo. Sem as exigências constantes do trabalho, passou a cozinhar sem pressa, desfrutar tardes tranquilas no zoológico com os filhos, fazer longas corridas com o marido e encontrar amigos para jantar ou ir ao teatro. Foi um período de muita alegria.

Desde então, assumiu um novo emprego mais exigente, mas agora reserva algumas horas por semana exclusivamente para lazer (sem cuidar de outras pessoas nem realizar tarefas domésticas) e faz questão de planejar atividades de que realmente gosta. Ela percebeu que sua saúde, seu bem-estar, sua família e seu trabalho se beneficiam dessa decisão.

Embora defendamos a criação de limites claros entre trabalho, responsabilidades familiares e lazer, o que acontece em uma dessas áreas inevitavelmente influencia as outras. Quando as pessoas usam mal seu tempo livre, acabam se sentindo exaustas e vazias — e menos capazes de encontrar realização, propósito ou alegria no trabalho. Mas, quando utilizam as poucas horas livres do dia para buscar alegria, melhoram sua perspectiva e seu desempenho tanto na vida pessoal quanto na profissional.

Em nosso estudo, descobrimos que os participantes que relatavam mais alegria no tempo livre também encontravam mais valor, propósito e sucesso em seus empregos, aumentando ainda mais sua satisfação com a vida. Eles haviam criado um círculo virtuoso.

Embora muitos entrevistados tenham vivenciado esse fenômeno, os comentários de Jane ficaram especialmente marcados em nossa memória. “Antes, eu nunca abria espaço para diversão porque achava que ela me afastava dos meus objetivos”, admitiu. “Mas, depois que a demissão me obrigou a desacelerar, descobri que permitir a mim mesma sentir mais alegria me dá paciência e mais energia para enfrentar os desafios da vida. Hoje não me sinto culpada quando tiro uma hora para mim e recarrego as energias. Sei que isso realmente me torna melhor até no trabalho.”

O tempo livre é escasso para muitos profissionais, mas ainda é possível maximizar a felicidade obtida dele protegendo esse tempo, seguindo paixões pessoais, priorizando a variedade e buscando experiências sociais e ativas. Você não precisa encontrar mais horas no dia nem abrir mão da busca por propósito e realização. Para construir uma vida mais satisfatória, basta encontrar mais faíscas de alegria no limitado tempo de lazer que já possui.

Sobre a pesquisa

Para este artigo, analisamos dados de 1.500 ex-alunos da Harvard Business School que utilizaram nossa ferramenta Life Matrix, criada para ajudar as pessoas a entender como usam seu tempo e avaliar se isso está alinhado aos seus valores. Para confirmar que os resultados eram generalizáveis, comparamos esses dados com os de um grupo diversificado de outros 458 profissionais que também utilizaram a ferramenta.

Todos os 1.958 participantes trabalhavam 40 horas ou mais por semana e tinham filhos. Examinamos como eles distribuíam suas 168 horas semanais, incluindo todas as atividades realizadas, com quem as realizavam e quanto de realização, propósito e alegria experimentavam em cada uma delas.

Como etapa complementar, também conduzimos sessões com grupos que variavam de oito participantes a mais de 1.000 para discutir os resultados.

Para experimentar a ferramenta, acesse yourlifematrix.com. Você será convidado a registrar e refletir sobre suas atividades. Com base nesses dados, a ferramenta gerará um Índice de Qualidade do Tempo, mostrando como você distribui seu tempo e como isso se compara ao padrão de outras pessoas, além de fornecer recomendações práticas e simples para aumentar sua satisfação com a vida. Os dados também serão incorporados a pesquisas em andamento sobre o que significa viver com intenção e prosperar.

Leslie A. Perlow é professora Konosuke Matsushita de liderança na Harvard Business School e fundadora do projeto Crafting Your Life, responsável pela criação da ferramenta Life Matrix. Sari Mentser é pesquisadora sênior da Harvard Business School. Salvatore J. Affinito é professor assistente de gestão e organizações da NYU Stern School of Business.

c.2026 Harvard Business Review. Distribuído por New York Times Licensing.