Método sustentável com bactérias recupera metais raros de lâmpadas
Bactérias extraem metais raros de lâmpadas fluorescentes

Pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara (SP), criaram uma tecnologia sustentável para recuperar metais valiosos de lâmpadas fluorescentes. Utilizando bactérias, o método extrai elementos de terras raras (ETRs) desses resíduos, que deixarão de ser produzidos a partir de 2027, elevando o volume de descarte.

Problema ambiental e solução inovadora

Atualmente, poucas empresas reciclam lâmpadas fluorescentes, e os processos existentes empregam agentes químicos prejudiciais ao meio ambiente. A nova pesquisa, publicada na revista científica internacional ACS Sustainable Resource Management, apresenta a biolixiviação como alternativa. Nessa técnica, bactérias são usadas para extrair os metais presentes no material descartado.

Segundo os pesquisadores, o método recupera quase totalmente alguns elementos, especialmente ítrio e európio, com pureza de até 96%. O pós-doutorando Ailton Guilherme Rissoni Toledo explica que as lâmpadas fluorescentes estão sendo substituídas por LEDs e que, no melhor cenário, o material triturado acaba em aterros sanitários. “É um desperdício enorme, porque a concentração de metais como ítrio e európio nesse resíduo é muito maior do que a encontrada em minérios naturais”, afirma.

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Concentração superior de metais

Enquanto depósitos minerais costumam ter menos de 1% desses elementos, o pó de lâmpadas fluorescentes pode atingir concentrações próximas a 10%, tornando o resíduo uma fonte valiosa. A pesquisa busca reverter o cenário atual de descarte inadequado.

Processo de extração sustentável

A biolixiviação utiliza microrganismos acidófilos para extrair metais de minérios de baixo teor e rejeitos. A bactéria Acidithiobacillus thiooxidans oxida enxofre e produz ácido sulfúrico, solubilizando os metais. A professora e diretora do IQ, Denise Bevilaqua, destaca que o microrganismo é autotrófico, usando gás carbônico do ar para crescer, eliminando a necessidade de matéria orgânica adicional. O enxofre utilizado pode ser um resíduo industrial.

As bactérias são cultivadas em meio de cultura para produzir ácido sulfúrico. Em seguida, o resíduo triturado das lâmpadas é adicionado, e o ácido libera as terras raras do pó.

Vantagens do método

Diferente das técnicas convencionais, o processo ocorre em temperatura ambiente e sem alta pressão, reduzindo riscos no transporte e manuseio de ácido. O docente Elias Ferreira, do Laboratório de Materiais Fotônicos do IQ, afirma que a qualidade do material obtido surpreendeu: “Em poucos dias, solubilizamos praticamente todo o ítrio e o európio presentes no resíduo”. O material recuperado apresentou propriedades luminescentes semelhantes às de materiais comerciais, indicando potencial tecnológico.

Ailton ressalta que o estudo utilizou um resíduo industrial complexo, com impurezas, ao contrário de experimentos com materiais mais puros. “Mesmo assim, alcançamos alta eficiência na extração”, completa.

Próximas etapas

Apesar dos resultados promissores, o processo precisa ser escalonado para produção industrial. “Os experimentos foram em escala de laboratório. Agora precisamos avaliar o comportamento em reatores maiores”, explica Denise. Outro desafio é separar individualmente os diferentes elementos de terras raras, que têm propriedades químicas semelhantes. “Neste estudo, ítrio e európio foram recuperados juntos. Para aumentar o valor econômico, é ideal separá-los de forma seletiva”, diz Ailton. Elias complementa que a ideia é desenvolver métodos de separação e utilizar os materiais em dispositivos de iluminação e displays.

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