Artista transforma recicláveis em obras sobre palafitas no Recife
Artista transforma recicláveis em obras sobre palafitas

Elizângela Maria do Nascimento, conhecida como Elizângela das Palafitas, transforma materiais recicláveis coletados nas ruas em obras de arte que retratam a vida nas palafitas e os desafios urbanos do Recife. Seus quadros, esculturas e maquetes chamam atenção para problemas como falta de saneamento básico e moradia digna.

Inspiração e trajetória

Natural de Moreno, na região metropolitana do Recife, Elizângela transformou a sala de sua casa em um ateliê repleto de pequenos objetos. A inspiração surgiu há mais de 20 anos, durante visitas ao Recife e a Olinda, onde observava o cotidiano das cidades. "Tudo que eu faço é através desse material que eu fico coletando nas ruas, por onde eu passo. Algumas pessoas também juntam para mim e me dão", conta.

Reconhecimento e acervo

Elizângela foi selecionada para o Salão de Arte Sustentável e está entre os cerca de 5 mil expositores da Fenearte. Duas de suas obras integram o acervo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no bairro de Casa Forte, Zona Norte do Recife. A obra "Da Lama ao Caos" homenageia o médico, geógrafo e escritor Josué de Castro, além do legado de Chico Science. Já "Cabaré de Biu Véia" foi inspirada em histórias de familiares. "O Cabaré de Biu Véia, na realidade, foi uma inspiração que eu tive de uma pessoa que era da minha família. Eu sempre escutava falar essas histórias de que eles viviam lá dançando, brincando, tomando cerveja, e comecei a retratar isso na minha arte. 'Da Lama ao Caos' é uma palafita que eu faço em homenagem a Josué de Castro, às marisqueiras, aos pescadores", explica.

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Desafios na comercialização

Apesar da dedicação e criatividade, vender as peças ainda é um grande desafio. Elizângela investe para inovar nas obras e mantém um estoque de trabalhos prontos. Os preços variam: ímãs de geladeira custam cerca de R$ 20, enquanto outras obras podem ultrapassar R$ 150. "O que está faltando é oportunidade de expor meu trabalho gratuitamente em feiras porque, às vezes, eu vou para as feirinhas, investo o dinheiro, tenho que pagar lanche, transporte. Às vezes eu não vendo o suficiente, não dá nem para comprar um lanche e volto infeliz. Aí dá aquela desanimação", relata.

Com o apoio do marido, o agricultor José Osvaldo da Silva, Elizângela complementa a renda trabalhando como cuidadora de idosos e faxineira. José Osvaldo lamenta: "É uma arte muito difícil de fazer uma coisa dessas. Às vezes eu fico até admirado com ela por causa disso. Ela passa o dia todinho e faz uma coisa linda. Eu fico triste porque um trabalho desses, que às vezes ela passa um mês para fazer, não tem valor. Chega meio-dia, uma hora da tarde, duas horas, e não vende nenhuma peça numa feira".

Arte como terapia

Elizângela não pensa em abandonar a arte. Para ela, produzir as peças é uma forma de terapia que a motiva a continuar criando e dando visibilidade às comunidades retratadas. "Eu sou feliz. Eu gosto muito, porque é uma terapia. Você esquece um pouco dos seus problemas. Eu fico aqui o dia todinho fazendo a minha arte, até de noite, até cansar. Não canso, não. Só fico fazendo arte direto. Esqueço até de dormir, de comer, às vezes", declara.

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