Desafio no combate a incêndios em veículos elétricos
Apagar um incêndio em um carro elétrico costuma levar muito mais tempo do que em um veículo a combustão. Em alguns casos, equipes de emergência passam horas jogando água sobre o automóvel mesmo depois de as chamas desaparecerem. As imagens frequentemente viralizam e alimentam uma dúvida recorrente: por que esses incêndios parecem tão difíceis de controlar?
Para responder a essa pergunta, o Jornal do Carro ouviu especialistas em engenharia automotiva, análise de falhas e eletromobilidade. A explicação passa pela própria arquitetura das baterias de alta tensão. Diferentemente de um incêndio convencional, o desafio não é apenas eliminar as chamas visíveis, mas impedir que o calor permaneça ativo dentro do conjunto.
Entrevistamos Erbis Biscarri, engenheiro e perito judicial com atuação nas áreas elétrica, eletrônica e automotiva. Especializado na investigação de falhas e incêndios em veículos, ele é autor do livro Fires in Conventional and Electrified Vehicles: Theory, Prevention, and Analysis, publicado pela SAE International, além de associado da Sociedade de Engenharia Automotiva (SAE Brasil). Também participou da reportagem Eduardo Zambelli, diretor de Eletromobilidade da Associação de Engenharia Automotiva.
Segundo Zambelli, a dificuldade começa na própria construção da bateria. As células responsáveis por armazenar energia ficam protegidas dentro de uma estrutura selada, o que limita o acesso direto ao ponto onde o superaquecimento acontece. “Você apaga e ele pode voltar. O problema é resfriar a bateria por dentro”, explica.
É justamente essa característica que diferencia o combate a incêndios em elétricos. Enquanto um veículo a combustão normalmente deixa de representar risco depois que as chamas são extintas, uma bateria ainda pode permanecer com temperatura elevada internamente. Ou seja, apagar o fogo é apenas parte do trabalho; o objetivo real é eliminar o calor acumulado para evitar uma nova ignição.
Na prática, isso exige uma estratégia diferente da adotada em incêndios convencionais. Segundo Biscarri, as equipes de emergência precisam focar no resfriamento completo do conjunto de baterias, e não apenas na contenção das chamas. “Não é um incêndio convencional. Você precisa resfriar a bateria por completo para evitar a reignição”, afirma.
Essa necessidade explica o uso de grandes volumes de água durante as operações. Dependendo do caso, podem ser necessários milhares de litros para reduzir a temperatura do sistema. Algumas estimativas citadas por especialistas apontam consumos que chegam à casa dos 40 mil litros, além da necessidade de monitorar o veículo mesmo após o controle do incêndio.
Por isso, quando um carro elétrico pega fogo, a duração da ocorrência costuma chamar mais atenção do que o próprio incêndio. O desafio não está apenas em apagar as chamas, mas em garantir que a bateria não continue produzindo calor suficiente para iniciar um novo foco horas depois.
A bateria muda tudo
Ao contrário do que o senso comum sugere, o carro elétrico não é um sistema isolado de riscos. Ele continua sujeito a causas tradicionais de incêndio: curto-circuitos em sistemas auxiliares, falhas mecânicas, vandalismo ou até fontes externas de fogo. A diferença está no componente central do sistema — a bateria de alta tensão.
“Ele continua sendo um carro. Pode pegar fogo pelos mesmos motivos de um veículo a combustão. Mas tem uma particularidade: uma bateria muito grande, com enorme quantidade de energia concentrada”, explica Biscarri.
Essa bateria, instalada geralmente no assoalho, é composta por centenas ou até milhares de células. Cada uma delas armazena energia por meio de reações químicas complexas, o que transforma o conjunto em um sistema altamente eficiente — mas que exige controle rigoroso.
O que é a tal “fuga térmica”
O principal fenômeno por trás dos incêndios em elétricos é o chamado thermal runaway, ou fuga térmica (também chamada de avalanche térmica). Trata-se de um processo em que uma célula da bateria entra em superaquecimento e desencadeia uma reação em cadeia.
“Você tem calor gerando reação química, e a reação química gerando mais calor. Isso se retroalimenta”, explica Zambelli.
Na prática, o processo pode começar de forma localizada — em uma única célula — e se espalhar rapidamente para as demais. Biscarri detalha que, nesse estágio, a célula pode liberar gases inflamáveis e até romper sua estrutura, aumentando a intensidade do incêndio e tornando o controle mais difícil.
Há ainda um fator que complica o cenário: diferentemente de incêndios convencionais, a reação química da bateria pode gerar seus próprios elementos combustíveis, o que reduz a dependência de oxigênio externo e dificulta o combate.
Três caminhos para o incêndio
Apesar da complexidade do fenômeno, os especialistas convergem para três principais origens que levam à fuga térmica.
- Dano físico: Colisões, deformações no assoalho ou perfurações podem comprometer a integridade da bateria e provocar curtos internos. “Mesmo impactos que parecem pequenos podem gerar danos que não são visíveis externamente”, afirma Zambelli.
- Carregamento inadequado: O uso de equipamentos inadequados, instalações elétricas improvisadas ou carregadores não homologados pode gerar sobrecarga e aquecimento excessivo. Biscarri cita casos em que o uso incorreto de equipamentos levou a incêndios ainda durante a recarga.
- Falhas internas: Podem ser resultado de defeitos de fabricação — hoje considerados raros — ou da degradação química natural das células ao longo do tempo. Nesse processo, podem surgir microcurtos internos que evoluem para aquecimento e, em casos extremos, incêndio.
Por que parece mais perigoso
Se os elétricos pegam menos fogo, por que a sensação de risco é maior? A resposta está no impacto visual e na dinâmica do incêndio. Quando um carro elétrico entra em fuga térmica, as chamas tendem a ser mais intensas, com emissão de gases e possibilidade de pequenas explosões. Isso gera imagens mais dramáticas — e, consequentemente, maior repercussão.
“É mais cinematográfico. Chama mais atenção, mesmo sendo mais raro”, resume Biscarri. Além disso, o tempo de combate é maior. Enquanto um incêndio em carro a combustão pode ser controlado em minutos, casos envolvendo baterias podem levar horas.
O carro costuma dar sinais
Apesar da complexidade, os sistemas atuais são projetados para evitar que o problema evolua sem aviso. Os veículos contam com sistemas de gerenciamento da bateria (BMS), que monitoram temperatura, tensão e funcionamento em tempo real.
Na prática, o motorista pode perceber sinais como perda de desempenho, redução de potência ou alertas no painel antes de um problema mais grave. “Ele não vai dizer exatamente o que está acontecendo, mas indica que há algo errado”, diz Zambelli.
Segundo o engenheiro, na maioria dos modelos o próprio sistema atua de forma preventiva ao identificar qualquer anormalidade. Isso inclui a redução da potência do carro e até a limitação — ou bloqueio — do carregamento da bateria, como forma de evitar o agravamento da falha. Esse tipo de intervenção tende a ser perceptível ao motorista, principalmente pela perda de desempenho do veículo.
Calor, enchente e uso diário
Um dos mitos mais comuns é que o calor intenso de países como o Brasil aumentaria o risco de incêndio. Os especialistas descartam essa hipótese. “As baterias são projetadas para operar em diferentes condições climáticas. Não há evidência de que o calor, por si só, cause incêndios”, afirma Zambelli. O mesmo vale para exposição à água ou enchentes, desde que não haja danos estruturais ao veículo.
Onde está o risco real
Se há um ponto de atenção claro, ele está fora da engenharia do carro — e mais próximo do uso. Intervenções fora do padrão, histórico de colisões, reparos mal executados e uso de equipamentos inadequados aparecem como fatores recorrentes nos casos analisados. “A tecnologia é segura, mas precisa ser usada dentro das condições corretas”, resume Biscarri.
Menos frequente, mais complexo — e ainda em evolução
Carros elétricos não são imunes a incêndios, mas os dados indicam que o risco é significativamente menor do que em veículos a combustão. Levantamentos citados por Erbis Biscarri apontam cerca de 25 casos a cada 100 mil veículos elétricos, contra aproximadamente 1.500 em modelos a combustão — uma diferença que pode chegar a 50 vezes.
“Quando você olha proporcionalmente, o veículo a combustão ainda pega fogo muito mais”, afirma o engenheiro. “O problema é que o incêndio no elétrico chama mais atenção e gera uma percepção diferente do risco.”
Mesmo em cenários mais conservadores, como o da Noruega, onde a frota elétrica já é expressiva, a incidência segue menor, ainda que em proporção reduzida, na casa de seis vezes. Ainda assim, os próprios especialistas ponderam que os números globais não são totalmente consolidados. “Faltam critérios padronizados para classificar esses incêndios. Isso dificulta comparações diretas entre tecnologias”, explica Biscarri.
Esse cenário ajuda a entender por que o tema ainda gera dúvidas. O incêndio em elétricos é mais raro, mas também mais complexo. A chamada fuga térmica pode ocorrer por diferentes caminhos — elétrico, mecânico ou químico — e, uma vez iniciada, tende a se propagar rapidamente entre as células da bateria. “É uma reação que se autoalimenta. Quando começa, o controle fica muito mais difícil”, diz Eduardo Zambelli.
Por outro lado, a evolução da tecnologia tem caminhado na direção oposta. Segundo os especialistas, as baterias atuais já apresentam maior durabilidade e menor taxa de falhas do que o previsto inicialmente. “Os sistemas de controle evoluíram muito. Hoje você tem monitoramento constante e mecanismos de proteção que evitam que o problema avance”, afirma Zambelli.
Na prática, isso significa que o risco existe, mas está cada vez mais controlado — especialmente quando o veículo é utilizado dentro das condições recomendadas. “Na maioria dos casos mais críticos, há um fator externo envolvido, como dano estrutural, intervenção inadequada ou uso fora do padrão”, aponta Biscarri.
A tendência, segundo os engenheiros, é que a eletrificação avance acompanhada de normas mais rígidas e maior padronização global. “A tecnologia ainda está evoluindo, mas a tendência é de redução desses casos ao longo do tempo”, diz Zambelli. Até lá, entender como esses incêndios acontecem — e em que situações — é essencial para colocar o tema em perspectiva. “Não é uma tecnologia mais perigosa. É uma tecnologia diferente, que exige entendimento”, conclui Biscarri.



