A disputa entre a Braskem e seus credores se acirra a menos de um mês do término da proteção contra cobranças concedida pela Justiça. Ambos os lados já admitem abertamente a possibilidade de a petroquímica entrar em recuperação judicial, caso não haja acordo. A tensão escalou depois que investidores externos, detentores de títulos de dívida em dólar (bondholders), insistiram na necessidade de desalavancagem imediata da companhia, conforme apurou a Broadcast.
Bondholders propõem aporte com exigência de garantia total
Os bondholders, maior grupo de credores da Braskem, propuseram injetar recursos na empresa, condicionados à entrega de todos os ativos da companhia como garantia. A oferta surge porque os atuais acionistas — IG4 Capital e Petrobras — sinalizam que não pretendem colocar dinheiro novo. Uma fonte próxima aos credores afirmou: “Os credores estão dispostos a desalavancar a empresa sozinhos e se os sócios não querem ser diluídos, podem colocar dinheiro também.”
A gestora norte-americana Elliott montou posição relevante entre os bondholders e, segundo fontes, lidera a ofensiva. No entanto, interlocutores próximos à Braskem resistem. “Estamos prontos para ir para uma recuperação judicial e derreter o valor dos bonds”, disse um deles, sinalizando que a empresa não cederá facilmente.
Negociações em ponto morto: IG4 e Petrobras alinhadas contra aporte
Para vencer a resistência da IG4, que comanda as negociações por ocupar as cadeiras executivas da área financeira, os bondholders pedem reuniões diretas com a Petrobras. Uma fonte próxima às negociações, porém, afirmou que “Petrobras e IG4 estão alinhadas” e que a estatal não injetará recursos, pois isso caracterizaria uma espécie de estatização da petroquímica, trazendo consigo dívidas e riscos relacionados ao passivo do afundamento de bairros em Maceió (AL).
A IG4 entende que a Braskem não precisa de capital novo antes da implementação do plano de reestruturação. A empresa propôs aos credores o alongamento da dívida por cinco anos, com três anos de carência de juros. “Não se faz aporte para pagar credores”, disse uma fonte. Essa postura gera impasse, pois os bondholders querem um choque de capital imediato.
Jogo duro dos credores e riscos para todos
Fontes do mercado destacam que gestoras estrangeiras, como as que agora detêm posições nos bonds da Braskem, não são investidores originais, mas compraram os papéis com deságio, visando lucro. Esses credores não cedem facilmente em negociações tensas. “Eles não querem ficar passivamente recebendo juros sobre um plano de recuperação que pode não dar certo; querem certeza de que a empresa gerará resultados e defendem um choque de capital”, explicou uma fonte.
Por outro lado, há quem avalie que, diante da situação do setor petroquímico global, não é possível esperar uma recuperação rápida da Braskem. Se ambos os lados mantiverem posições intransigentes, a recuperação judicial se torna provável, com consequências para todos: perda de imagem e reputação para os acionistas e descontos na dívida para os credores.
Proteção judicial se aproxima do fim; plano extrajudicial precisa de 33% dos credores
A proteção contra cobranças obtida pela Braskem na Justiça expira em menos de um mês. Durante esse período, a empresa tenta alinhavar um plano de recuperação extrajudicial, que requer a adesão inicial de 33% dos credores. Bancos credores e um grupo de debenturistas estariam em diálogo com a área financeira da petroquímica para construir um plano até o fim de agosto. A companhia também mantém conversas com parte dos bondholders, sem os quais não é possível atingir o quórum necessário.
Braskem não comenta, mas admite propostas não vinculantes
Procurada, a Braskem não comentou o assunto. Em comunicado ao mercado na última semana, a empresa afirmou que, “como é comum à dinâmica em processos dessa natureza, a companhia e seus assessores seguem interagindo com os credores e seus assessores, tendo recebido propostas meramente indicativas e não vinculantes de grupos de credores sobre as principais condições e parâmetros tentativos para uma potencial reestruturação, que permanecem em análise pela companhia”.
O desfecho do impasse dependerá da capacidade de as partes cederem em seus pleitos. Enquanto isso, o mercado acompanha atento os próximos passos da Braskem e de seus credores, em uma negociação que pode definir o futuro da maior petroquímica do Brasil.



