O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (16) que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de 'forma grosseira e arrogante' em declarações 'inaceitáveis' sobre o tarifaço imposto pelos EUA aos produtos brasileiros. Nas redes sociais, Rubio acusou Lula de 'não negociar com os EUA de boa-fé'.
Mais de 30 reuniões realizadas
De acordo com Vieira, desde o início das negociações o governo brasileiro buscou manter o diálogo com Washington. Ele afirmou que, desde março de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico. 'Desde o primeiro momento o presidente Lula buscou diálogo e enfatizou sua disposição de negociar. As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros', disse Vieira, ressaltando que só com Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, foram 11 contatos, incluindo o encontro entre Lula e o presidente Donald Trump na Casa Branca. 'Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.'
Procedimento unilateral
O ministro ainda disse que a investigação conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 é um procedimento unilateral e contestou os argumentos apresentados por Washington para embasar a adoção da tarifa de 25% imposta sobre produtos brasileiros. A medida, confirmada pelo governo de Donald Trump na noite de quarta-feira, entra em vigor no dia 22 de julho. 'As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros.' O chanceler relembrou que, após a carta enviada pelo presidente Trump ao presidente Lula, em julho de 2025, as tarifas foram elevadas de 10% para 50%, em uma decisão que, segundo ele, teve 'expressa motivação política'. 'Foi justamente nessa carta, em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50% caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente interrompido, que foi dada a instrução para o início da investigação sob a Seção 301', disse.
Defesas formais e resposta do Brasil
Ele ainda sustentou que o governo brasileiro participou da investigação aberta pelos Estados Unidos, apresentou duas defesas formais e enviou uma delegação de alto nível a Washington para consultas sobre o caso. Ainda assim, disse que a decisão americana ignorou os argumentos apresentados pelo Brasil. Em sua avaliação, 'não houve racionalidade' na aplicação das tarifas. O ministro também rebateu as críticas feitas pelos Estados Unidos ao Pix e à política ambiental brasileira. 'Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil', afirmou.
Desmatamento e alegações 'absurdas'
Sobre as acusações relacionadas ao desmatamento, o chanceler classificou as alegações como 'absurdas' e disse que o país reduziu significativamente a devastação da Amazônia e do Cerrado desde 2022. Vieira também afirmou que os argumentos apresentados por Washington para justificar as sanções comerciais não correspondem aos fatos. 'Todas as alegações dos americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade', declarou. Na madrugada de hoje, o governo divulgou uma nota em que classificou a decisão norte-americana como 'unilateral', 'ilegal' e 'arbitrária' e afirmou que o dia 15 de julho 'passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável'. No comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Planalto informou que 'iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional' e que retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Três frentes de ação
A reação brasileira, segundo a nota, se organizará em três frentes: a diversificação de mercados — com prioridade para a implementação dos acordos do Mercosul com a União Europeia, a Efta e Singapura e negociações com parceiros como México, Canadá, Japão e Índia —; medidas de socorro às empresas afetadas, por meio do Plano Brasil Soberano; e o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a adotar contramedidas a barreiras comerciais consideradas injustificadas.
Governo rebate ponto a ponto
O governo também rebateu, ponto a ponto, as justificativas da investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), baseado na Seção 301 da lei comercial americana. A nota classificou como 'descabidas' as alegações contra o Pix e a regulação de plataformas digitais, e como 'absurdas' as acusações relacionadas ao desmatamento. Como argumento contra a tese de práticas comerciais desleais, o Planalto citou estatísticas do próprio governo americano: um superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, além do dado de que, em 2025, 76% das importações de origem americana entraram no país sem pagar imposto de importação, com alíquota média efetiva de 3,1%. A nota trouxe ainda uma ofensiva política direta contra a família Bolsonaro, acusada de 'ativa colaboração' com o desfecho da investigação americana. 'São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros', diz o texto.



