Novo e Missão disputam voto liberal com Zema e Renan Santos
Novo e Missão disputam voto liberal com Zema e Renan Santos

O Novo aposta na pré-candidatura do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema à Presidência para recuperar espaço entre eleitores que se identificam com pautas liberais, mas não se sentem representados pelo bolsonarismo. Nessa disputa, o partido enfrenta o Missão, legenda criada por ex-integrantes do MBL, cujo presidente, Renan Santos, também concorre ao Planalto. No sábado, o Missão oficializou a candidatura de Renan e apresentou o Livro Amarelo, documento com as principais propostas de governo.

As duas campanhas disputam as mesmas bandeiras: estado mínimo, fim das cotas raciais e um discurso antissistema. Zema tenta repetir a estratégia que o elegeu governador em 2018, quando era um empresário desconhecido da rede varejista da família e se apresentou como alternativa ao governo petista de Fernando Pimentel. Agora, com o desafio de nacionalizar o nome, o ex-governador ampliou o alvo: além de se opor ao governo Lula, passou a criticar o STF, sobretudo após os desdobramentos do caso Master.

O desafio da cláusula de barreira

O partido não atingiu a cláusula de barreira em 2022, que exige a eleição de ao menos 13 deputados federais ou 2,5% dos votos válidos para a Câmara, distribuídos em pelo menos um terço dos estados. Como consequência, o Novo chegou à disputa com acesso restrito ao fundo partidário e sem tempo de propaganda gratuita na TV e no rádio. Entre 2018 e 2022, a legenda caiu do quinto para o sexto lugar na votação presidencial e viu sua bancada na Câmara encolher de oito para três deputados.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Para reverter esse quadro, a campanha presidencial de Zema é tratada como vitrine para fortalecer o partido nacionalmente e impulsionar candidaturas proporcionais. O ex-governador tem percorrido municípios do interior dos principais colégios eleitorais e concedido entrevistas a rádios locais ao lado de candidatos a deputado federal e estadual. No encontro nacional do partido, em São Paulo, os postulantes também puderam posar com Zema e outros puxadores de voto em um estande montado para a ocasião. "Esse é o ano mais importante da nossa vida partidária. Nós estamos diante de uma barreira e, se nós a superarmos, o Novo vai crescer e nós vamos mudar a política do nosso país. Mas, se nós fracassarmos diante da cláusula de barreira, pode ser que a gente nunca mais consiga passá-la", afirmou o ex-deputado e pré-candidato ao Senado Deltan Dallagnol.

Propostas e pautas em comum

No plano de governo, Zema tem reforçado propostas como a defesa do estado mínimo, a privatização de estatais e mudanças no Bolsa Família para criar, segundo ele, "portas de saída" para os beneficiários. Essas bandeiras retomam posições históricas do Novo, defendidas pelos presidenciáveis da legenda em 2018, João Amoedo, e em 2022, Felipe D'Avila. O ex-governador também prometeu criar superpresídios em uma área remota da Amazônia para isolar lideranças criminosas por "pelo menos 25 anos".

Renan Santos, por sua vez, propõe rever os benefícios sociais, substituindo o Bolsa Família por "frentes de trabalho remuneradas". Na segurança pública, defende medidas inspiradas na política de combate ao crime organizado implementada em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, alvo de denúncias de violações de direitos humanos. Durante a convenção do Missão, no sábado, ele disse que "nós vamos matar quem roubar" e, em um discurso radical, chamou Flávio Bolsonaro (PL) de "farsante, fraco e corrompido" e se referiu ao presidente Lula (PT) como "maldito".

Os dois candidatos ainda convergem na defesa das privatizações, no corte de gastos e nas críticas às cotas raciais. Há, porém, diferenças na estratégia. Renan afirma que não utilizará recursos do fundo eleitoral e buscará financiamento por meio de doações de apoiadores em uma vaquinha online. O Novo também rejeitava esse tipo de verba desde sua fundação, mas passou a admitir o uso do fundo eleitoral em 2024.

Redes sociais e troca de farpas

Ambas as campanhas apostam nas redes sociais como principal ativo. No Instagram, Zema soma 2,5 milhões de seguidores, contra 2,1 milhões de Renan. Já em engajamento, o candidato do Missão aparece à frente: média de 50 mil curtidas por publicação, ante 13 mil do ex-governador, segundo a ferramenta Social Blade.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Apesar das semelhanças, Renan nega que esteja disputando o mesmo eleitorado que Zema e critica o Novo por "atuar institucionalmente como um partido bolsonarista". "Não há, da nossa parte, a intenção de fazer uma disputa eleitoral com o Novo, porque, se existe uma disputa por um voto de direita liberal, grupo que defende uma agenda reformista para o Brasil, somada a preceitos como liberdade de expressão e Estado Democrático de Direito, isso não existe dentro do Novo, salvo raras exceções. Ele é, institucionalmente, um partido bolsonarista. E, nesse sentido, eu não estou concorrendo com eles por esse voto bolsonarista", disse Renan ao GLOBO.

O papel de Zema no partido também foi alvo de críticas de Renan no início do mês, durante um evento do MBL em Belo Horizonte. Na ocasião, ele afirmou que o ex-governador estava "perdido" dentro da sigla e que, como empresário, não era um nome "fora do sistema" em Minas. A declaração foi rebatida por Zema, que criticou a falta de experiência administrativa do adversário. "Como ele não teve experiência na gestão pública, sai dando tiro como uma metralhadora giratória, prometendo mundos e fundos", disse o mineiro em uma sabatina promovida pelo grupo Derrubando Muros.