Vereador Senival Moura (PT) preso em operação por lavagem de dinheiro do PCC
Vereador Senival Moura preso em operação do Gaeco

O vereador de São Paulo Senival Pereira de Moura (PT) foi preso na manhã desta quinta-feira (24) durante a Operação Última Parada, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Ele é apontado como figura central em um suposto esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as investigações, a empresa de ônibus Transunião Transportes S.A. teria sido usada para ocultar patrimônio e movimentar recursos da facção criminosa.

Trajetória política e relação com o transporte

Em seu sexto mandato na Câmara Municipal, Senival ocupa atualmente os cargos de primeiro-secretário da Mesa Diretora e de presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica, colegiado responsável por discutir e fiscalizar políticas relacionadas ao setor de transportes na capital paulista. Segundo a investigação, o vereador construiu sua trajetória política na Zona Leste após atuar com antigos operadores de transporte alternativo, conhecidos como "perueiros", durante o processo de regularização do setor no início dos anos 2000. Os investigadores afirmam que sua relação com o transporte de passageiros é ainda mais antiga e remonta à década de 1970, quando ele explorava linhas clandestinas que ligavam os bairros de Guaianases ao Itaim Paulista, também na Zona Leste da capital, a partir de veículos Kombi.

Antecedentes e assassinato de ex-diretor

O nome do parlamentar, porém, não aparece pela primeira vez nas investigações envolvendo a Transunião. Em 2022, o g1 revelou que Senival já era investigado por suspeita de envolvimento na morte de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da empresa de ônibus. Na ocasião, a Polícia Civil prendeu dois suspeitos e apreendeu 13 ônibus da companhia. O vereador negou as acusações e afirmou estar à disposição da Justiça.

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Investigação e o assassinato de Adauto

O ponto de partida das investigações foi o assassinato de Adauto, morto a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste, em março de 2020. Em 2022, os investigadores já apontavam que Adauto atuava como um dos "laranjas", sendo um "testa de ferro", ou seja, um dos representantes de Senival Moura na direção da empresa Transunião, que seria utilizada para a lavagem de dinheiro de integrantes do PCC. Na ocasião, a polícia apontou Jair Ramos de Freitas, conhecido como "Cachorrão", como o autor dos disparos que mataram o ex-diretor. No dia do crime, Adauto foi levado até a padaria por Devanil Souza Nascimento, o "Sapo", apontado como motorista de confiança de Senival e também preso na operação de 2022. O Ministério Público sustenta que o crime foi motivado por uma "quebra de confiança" financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um "caixa dois" para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC. Diante disso, o operador Leonel Martins ("Cabeça Branca") teria sido escalado para resolver a questão por meio de um "debate" (tribunal do crime), que resultou na ordem de execução.

Novas evidências e papel central de Senival

Quatro anos depois, a nova operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) sustenta que reuniu elementos em celulares apreendidos que colocam novamente Senival no centro do caso. Embora não apareça no contrato social, mensagens analisadas mostram que movimentações financeiras informais e repasses de grandes quantias em dinheiro — como pagamentos semanais de R$ 70 mil para "acertar os cara" — dependiam de sua anuência ou intervenção prévia. Segundo os investigadores, mensagens analisadas durante a investigação indicam que movimentações financeiras informais e repasses de recursos dependiam de sua autorização prévia. Nas comunicações entre os operadores do esquema, de acordo com os autos, Senival era frequentemente identificado pelos apelidos de "presidente", "véio", "velhinho" ou simplesmente "vereador".

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Patrimônio milionário e ocultação

Planilhas internas apreendidas pela investigação também apontam que o parlamentar aparecia como "cooperado oficial" de pelo menos 13 ônibus da frota. Segundo os investigadores, a expressão era utilizada para identificar o verdadeiro beneficiário econômico dos veículos, embora eles estivessem registrados em nome de terceiros ou da própria empresa. Apesar disso, os rendimentos eram sistematicamente desviados para o vereador, segundo a investigação. As apurações da operação deflagrada nesta quinta indicam que o esquema utilizava familiares e pessoas de confiança para ocultar patrimônio e interesses econômicos ligados ao vereador. Os autos citam a participação da esposa de Senival, Maria de Lourdes Andrade de Moura, de seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, e de seu irmão, Rubens Pereira de Moura, em movimentações e registros societários suspeitos. Além do núcleo familiar, o assessor parlamentar Adão Lino dos Santos e o motorista Devanil Sousa Nascimento, o "Sapo", são apontados como peças operacionais que asseguravam o controle fático do vereador sobre a empresa e suas subsidiárias.

Movimentação financeira e imóveis

Relatórios de inteligência financeira mencionados na investigação apontam que Senival movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022. Segundo os investigadores, haveria uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo vereador. Os autos também mencionam a posse de imóveis de alto padrão, entre eles um apartamento na Vila Madalena, na Zona Oeste da capital, e uma propriedade rural em Extrema, no sul de Minas Gerais.

Condenação à morte e perdão

Os documentos do Ministério Público afirmam que, após a descoberta dos supostos desvios, tanto Adauto quanto Senival teriam sido "condenados à morte" pelo PCC pelo chamado "tribunal do crime" da facção. Segundo os investigadores, porém, o vereador teria sido perdoado em razão de sua influência política e capacidade financeira de ressarcir parte do prejuízo apontado pela facção. Como contrapartida ao "perdão", Senival teria sido compelido a concordar com a morte de Adauto, seu próprio representante. Adauto Soares Jorge acabou assassinado a tiros em março de 2020, em uma emboscada na Zona Leste. As conclusões apresentadas pelo MP-SP e pela Polícia Civil representam a linha de investigação das autoridades e ainda serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa ao longo do processo judicial. O g1 busca contato com a defesa de Senival. Em 2022, o vereador afirmou que era inocente, que foi surpreendido pela ação policial e que estava à disposição da Justiça.