PM condenado por tortura após roleta-russa com adolescente em SP
PM condenado por tortura após roleta-russa com adolescente

Um sargento da Polícia Militar de São Paulo foi condenado a 12 anos e 5 meses de prisão por tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato após simular uma roleta-russa com um adolescente durante uma abordagem na zona leste da capital. As imagens, captadas por câmeras corporais, mostram o momento em que o policial coloca uma bala no tambor de um revólver, gira a arma e aperta o gatilho contra a cabeça da vítima. O disparo não ocorreu porque a munição não ficou na câmara de tiro.

Abordagem violenta e ameaças

O caso aconteceu em uma favela da região conhecida como Caixa d'Água, pouco antes das 16h. As gravações revelam que, antes da cena da roleta-russa, outro policial aparece segurando um dos adolescentes pelo pescoço e apontando uma pistola para sua cabeça. Em seguida, o mesmo jovem é ameaçado com a arma encostada no olho. Pouco depois, o sargento Amauri dos Santos chega ao local, conversa com outro policial e pede que ele vire de costas para a câmera corporal. Na sequência, coloca uma única munição no tambor vazio de um revólver, gira o mecanismo e aponta a arma para a cabeça do adolescente, apertando o gatilho. O revólver não dispara. Logo depois, ainda encosta a arma no rosto e no pescoço do jovem.

Tortura psicológica

Segundo especialistas ouvidos durante a investigação, a prática é conhecida como roleta-russa e configura uma forma de tortura psicológica, já que a vítima não sabe se a arma irá disparar. "A roleta russa é o expediente que se utiliza exatamente para torturas psicológicas. Se a munição alimentar a arma, dispara e o sujeito morre. É essa sorte ou azar que realmente inflige o temor na vítima", afirma Giovana Ortolano Guerreiro, promotora de Justiça Militar. As imagens também mostram que um dos policiais presencia a cena, mas não intervém.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Drogas encontradas desaparecem

Em seguida, os agentes obrigam os adolescentes a caminhar pela comunidade e entram em diversas casas sem mandado judicial. Em uma das residências, os policiais encontram grande quantidade de entorpecentes e comemoram a descoberta. De acordo com a investigação, o material, que foi colocado em caixas, mochilas e sacos plásticos, desapareceu antes de ser apresentado oficialmente.

Investigação e condenações

As gravações das câmeras corporais foram analisadas pela Corregedoria da Polícia Militar após uma denúncia de irregularidades. Durante o processo, o sargento afirmou que o revólver usado na abordagem era de brinquedo e que a munição era apenas uma cápsula de treinamento. Também alegou que o material encontrado na casa era lixo, versão rejeitada pela investigação. O Tribunal de Justiça Militar condenou o sargento Amauri dos Santos por tortura, abuso de autoridade, fraude processual — por obstruir a câmera corporal — e peculato, pelo desaparecimento das drogas encontradas durante a operação. A pena foi fixada em 12 anos e cinco meses de prisão. O cabo Sandro Nascimento também foi condenado por tortura e abuso de autoridade, com pena de quatro anos e dez meses em regime semiaberto. O advogado de Sandro sustentou que a conduta do cabo configurava apenas uma transgressão disciplinar, tese rejeitada pela Justiça. Eduardo Uchoa e outros seis policiais são réus e ainda serão julgados. Em nota, a defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do soldado.

Debate sobre câmeras corporais

O caso também reacendeu o debate sobre as câmeras corporais da PM paulista. As imagens foram registradas pelo sistema antigo, que gravava continuamente em modo de rotina, mesmo sem acionamento manual. No modelo atual, a gravação depende, em regra, do acionamento pelo próprio policial ou de ativação remota, o que, segundo especialistas, poderia impedir o registro de situações como a mostrada nas imagens.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar