A Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Miragem para investigar o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. A PF acusa a instituição de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidade desproporcional aos indicadores de mercado, replicando tática usada pelo Banco Master. O esquema teria como objetivo transferir o risco aos depositantes e ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), enquanto os controladores preservariam seus patrimônios pessoais.
Venda ao BTG e necessidade de aporte bilionário
De acordo com a investigação, o desdobramento das operações financeiras culmina na proposta de alienação do controle societário do Digimais ao Banco BTG Pactual. Segundo a PF, trata-se de uma transação de mercado estritamente condicionada à injeção estrutural de recursos por parte do FGC. A necessidade de aporte para concretizar a venda seria de R$ 7 bilhões, montante destinado a cobrir o déficit do Digimais. Para os federais, isso evidencia a concretização da transferência do risco inerente à atividade bancária, permitindo que os operadores e administradores do banco se eximam da obrigação de suportar o passivo resultante de suas condutas de gestão, consolidando a terceirização do ônus financeiro para o FGC.
Os policiais afirmam que se cria uma dinâmica na qual os causadores da insolvência repassam a integralidade do prejuízo para o sistema de proteção, logrando isolar seus respectivos patrimônios dos resultados da atividade desempenhada e afastando-se da operação sem arcar com a responsabilidade pecuniária. Caso a operação com o BTG não se concretize, a liquidação do banco pode ser decretada.
Histórico do banco e liquidação do Master
O Banco Digimais, originalmente Banco Renner, foi fundado em 1981 em Porto Alegre e pertencia à família Renner, atuando em crédito consignado e financiamento de veículos. Em 2009, o grupo Record comprou 40% das ações, com formalização pelo Banco Central em 2013. Edir Macedo e sua mulher, Ester Bezerra, adquiriram 49% do Renner em 2013 e o restante em 2020, quando o nome foi alterado para Digimais.
Segundo a PF, nos anos subsequentes a administração implementou rotinas de captação e cessão de crédito que resultaram em descompassos contábeis e patrimônio líquido a descoberto na ordem de bilhões de reais no início de 2026. A falta de liquidez levou Macedo a concordar em vender o banco ao BTG em abril de 2026. Após a liquidação do Banco Master, evidenciou-se uma exposição de aproximadamente R$ 600 milhões do Digimais a carteiras de crédito do Master, cujos ativos passaram a ser questionados quanto à qualidade e lastro.
Em janeiro de 2025, houve uma tentativa de aquisição por Maurício Quadrado, executivo egresso do Master, por meio do Bluebank, mas a operação foi vetada pelo BC. Uma operação de cessão de créditos de R$ 660 milhões ao fundo FIDC EXP 1 em março de 2025 resultou em litígio judicial por inconsistências e ausência de lastro documental.
Fraudes contábeis e operação Zé com Zé
A PF recebeu do Banco Central o processo eletrônico 303924 de supervisão bancária, que identificou irregularidades cometidas por gestores do Digimais, configurando fatos criminosos. O BC constatou manobras contábeis perpetradas pelos diretores Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos e Rodrigo Ruggero, em conluio com a controladora B.A. Empreendimentos e Participações.
A engrenagem teve início quando o Digimais passou a deter cotas do Hermon Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Não Padronizados, registradas nos balanços por R$ 741.348.945,70. O fundo detém direitos de crédito originados de uma ação de indenização de 1967 dos herdeiros da Família Villela contra a União. Em fevereiro de 2023, o ID112 Fundo adquiriu 7,7% do crédito por R$ 9 milhões, reavaliado para R$ 100 milhões após transferência ao Fundo Guidare. Em junho de 2023, outra parcela de 9,25% foi adquirida por R$ 22 milhões e reavaliada para R$ 130 milhões. No total, ativos adquiridos por R$ 31 milhões foram registrados por R$ 230 milhões, gerando rendas de R$ 199 milhões.
Em setembro de 2023, o Hermon Fundo realizou mais duas compras de direitos de crédito por R$ 20 milhões cada, reavaliadas para R$ 174.590.281,80 cada, elevando o patrimônio do fundo para R$ 741.348.945,70, com custo total de R$ 71 milhões. O BC determinou a reversão das rendas em outubro de 2023, mas o Digimais solicitou parcelamento em cinco anos.
Em 29 de dezembro de 2025, o Digimais celebrou contrato de compra e venda a prazo das cotas com a controladora B.A. Empreendimentos pelo valor total de R$ 741.348.945,70, sem ingresso de recursos, com pagamento previsto para 2032. A operação manteve os valores inflados nos balanços, burlando a determinação do BC. O BC apontou que a operação excedeu o limite de exposição de crédito em R$ 699.635.653,47 e caracterizou financiamento ao controlador, com incidência de IPCA + 0,5% ao ano, vedado pela Lei de Crimes do Colarinho Branco.
A PF concluiu que a articulação em sucessão de fundos para mascarar a aquisição de direitos creditórios com valores inflados configura gestão fraudulenta (artigo 4º da Lei 7.492/1986). A manutenção de elementos falsos nos balanços após determinação de correção alinha-se ao artigo 10, e a venda das cotas beneficiando a controladora com desrespeito aos limites de crédito amolda-se ao artigo 17 da mesma lei.



