Operação Gutemberg: mensagens citam políticos em esquema de fraude de R$ 27 mi
Mensagens citam políticos em fraude de R$ 27 mi em MS

A Operação Gutemberg, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, encontrou menções ao vereador Herculano Borges (Republicanos), aos deputados estaduais Jamilson Name (PP), Paulo Corrêa (PL) e Mara Caseiro (PSDB) e ao vice-governador Barbosinha (PSD) em mensagens extraídas do celular de Ed Carlo Brito Burgatt, apontado como um dos articuladores de um esquema de fraude em licitações para fornecimento de livros paradidáticos. Segundo a investigação, o grupo fraudou ao menos R$ 27 milhões em contratos com 12 prefeituras sul-mato-grossenses.

Investigação do Gaeco e foro privilegiado

Os promotores do Gaeco - braço do Ministério Público que investiga crime organizado - encaminharam documento à Procuradoria-Geral de Justiça informando sobre a menção por terceiros a deputados estaduais e a prefeitos na investigação. A Procuradoria analisou o conteúdo das informações do Gaeco e entendeu que ainda é necessária a obtenção de mais dados que deem suporte a uma investigação criminal sobre citados com foro privilegiado no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ-MS). A partir da manifestação da Procuradoria-Geral, o desembargador Castro Fassa determinou o retorno dos autos à 2.ª Vara Criminal de Campo Grande para sequência das investigações.

Segundo as investigações, o auditor de serviços e coordenador de regulação da Secretaria da Saúde do Estado, Ed Carlo, tramava com o advogado Gabriel Taquino de Paula, representante comercial da Editora Avante - empresa com capital social de R$ 40 mil que recebeu R$ 27 milhões das prefeituras, entre agosto de 2022 e setembro de 2024. No começo de julho, a Operação Gutemberg foi deflagrada e prendeu Ed Carlo e Taquino. A Justiça decretou a prisão de outros 14 investigados.

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Primeiras menções a Jamilson Name

As primeiras menções ao deputado estadual Jamilson Name (PP) aparecem em 9 de maio de 2022. Naquele dia, Gabriel Taquino informou a Ed Carlo que havia “fechado” uma negociação com o município de Ivinhema e pede que seja marcada “uma reunião com o chefe do Jamilson”. Ed Carlo respondeu que os dois iriam ao encontro do deputado no dia seguinte. Ao ser questionado se levariam um terceiro interlocutor identificado como Anízio, o auditor disse que Gabriel poderia ir sozinho caso conseguisse explicar a proposta. Na sequência da conversa, dez minutos depois, Gabriel comunica: “Ivinhema fechou.”

Ainda em maio de 2022, Ed Carlo e Gabriel Taquino discutiram a comercialização de materiais da Editora Avante para a prefeitura de Bonito. Segundo a investigação do Ministério Público, Ed Carlo afirmou nas conversas que um homem identificado como “Júlio”, apontado como assessor dos deputados Paulo Corrêa (PL) e Jamilson Name, faria contato porque os parlamentares teriam influência sobre municípios que não eram alcançados por um interlocutor chamado “Júnior”, ampliando as chances de contratação pela prefeitura.

Divisão de percentuais e atuação política

Em 30 de maio de 2022, as conversas passaram a tratar diretamente da atuação política dos deputados, segundo o Gaeco. Conforme a investigação, Ed Carlo e Gabriel afirmaram que Paulo Corrêa e Jamilson estariam intervindo junto a prefeituras para favorecer a contratação dos livros da Editora Avante. No mesmo dia, os dois discutiram a divisão de percentuais do negócio. Ed Carlo perguntou: “Os 5 meu e 5 do Jr está garantido no governo, né?” Gabriel respondeu: “35”. Em seguida, Ed Carlo afirmou: “Mas no governo vocês falaram 35 e o Jamilson cresceu o olho.” Gabriel disse que o deputado ligaria para ele, e Ed Carlo respondeu que Jamilson “já falou no governo” e que o negócio “vai dar certo em todos os municípios”.

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Os promotores anotam que, em vários trechos de conversas entre Ed Carlo e Gabriel Taquino, via aplicativo de mensagens WhatsApp, fica evidente a forma com que eles conseguiam garantir vendas para a editora, ora oferecendo propinas a agentes públicos, ora pressionando ou chantageando administrações. Em 12 de julho de 2022, novas mensagens voltam a relacionar Jamilson às negociações. Na ocasião, Gabriel informou que o município de Rio Negro estaria “fechado” e que Júnior havia “alinhado” o negócio, acrescentando que tentaria avançar também em Rochedo e Rochedinho. Ed Carlo respondeu que aqueles eram “os municípios do deputado Jamilson”.

Envolvimento de Barbosinha e Herculano Borges

No fim daquele mês, em 28 de julho, as conversas passaram a citar o então deputado estadual José Carlos Barbosa, o Barbosinha (PSD), hoje vice-governador de Mato Grosso do Sul. Ed Carlo informou que havia marcado uma reunião com um assessor de Barbosinha, que teria “dez municípios” para trabalhar com os materiais da Editora Avante. Na mesma conversa, disse que buscaria um “parceiro de outro deputado”. Gabriel, paralelamente, relatou contratos já fechados em Itaporã, Douradina e Ivinhema e mencionou tratativas em Alcinópolis. Ed Carlo afirmou que, após alinhar a estratégia, percorreriam os municípios do parlamentar: “São os municípios do deputado Barbosinha.” Em seguida, anuncia uma ampla ofensiva para favorecer o esquema: “Vou bater agora em cima dos deputados. Todos me procuram.” Antes, resumiu o objetivo do esquema: “Tem que fechar tudo que vier. Dinheiro é dinheiro.”

Em 1º de agosto de 2022, Gabriel e Ed Carlo trataram simultaneamente de uma reunião com Barbosinha e outra com um assessor do vereador Herculano Borges (Republicanos), de Campo Grande. Na mesma conversa, Gabriel informou que a prefeitura de Miranda faria um pagamento naquele dia e calculou a distribuição dos valores. Segundo ele, o contrato principal seria de R$ 1,04 milhão e sua comissão corresponderia a R$ 52 mil, o equivalente a 5% do valor. No dia seguinte, após Gabriel confirmar que o pagamento havia sido realizado, Ed Carlo orientou: “Pede pra separar daquele jeito que quinta pego”. Logo depois, afirmou: “Vou entregar pro dep e fazer ele ligar para os municípios”, sugerindo que parte dos recursos seria levada a um deputado antes de novos contatos com prefeituras, segundo o MP.

Em 3 de agosto, as conversas voltaram a mencionar Herculano Borges. Gabriel perguntou se o compromisso com o vereador ocorreria naquele dia. Ed Carlo respondeu que verificaria a agenda e, horas depois, informou: “Herculano amanhã”. Gabriel confirmou a programação e mencionou ainda um encontro com um prefeito às 16 horas.

Menções a Mara Caseiro e continuidade do esquema

Ao longo de 2023, Ed Carlo e Gabriel Taquino continuaram discutindo estratégias para obter apoio político de deputados estaduais com o objetivo de ampliar as vendas da Editora Avante. Nas conversas, são citados novamente os deputados Jamilson Name (PP) e Paulo Corrêa (PL), com o nome da deputada Mara Caseiro (PSDB) sendo citado pela primeira vez pelos suspeitos. “Marca com Paulo Corrêa”, escreveu Gabriel em março de 2023. Em seguida, explicou a finalidade do encontro: “Para nos ajudar a fazer dinheiro.”

Em 18 de abril, Ed Carlo disse ter “boas notícias”. Questionado por Gabriel sobre para quem seriam, respondeu: “Nós” e, em seguida, completou: “Livros”, indicando novas perspectivas de negócios, segundo o MP. Dois dias depois, em 20 de abril, Ed Carlo afirmou que buscaria apoio dos parlamentares: “Segunda vou alinhar com Jamilson e te chamo”, diz. Gabriel respondeu que estava “precisando captar”. Na sequência, Ed Carlo acrescentou: “Vou pedir ajuda para o Paulo Corrêa”, ao que Gabriel respondeu: “Ótimo”.

Em nova conversa, em 25 de abril, Ed Carlo informou que iria se reunir com Jamilson Name: “Eu vou na sexta falar com Jamilson”. Gabriel reage demonstrando expectativa de retorno financeiro: “Vamos ganhar dinheiro, estamos precisando faturar”. As tratativas avançam para a deputada estadual Mara Caseiro em 24 de maio. Ed Carlo informou que Anísio havia ido conversar com “a Mara” e com “Tiago”. Gabriel perguntou se se tratava de Mara Caseiro, e Ed Carlo confirmou, esclarecendo que Tiago era “genro dela” e “o cara que toca tudo pra ela”.

Rastreamento financeiro e saques suspeitos

O rastreamento do dinheiro desembolsado pelas prefeituras mostra que após os recebimentos dos valores, “gestores” da Avante fizeram diversos saques em dinheiro que totalizaram R$ 9 milhões – a grande maioria dos saques no limite de R$ 49 mil cada, “no intuito de evitar a comunicação compulsória aos órgãos de fiscalização”. A investigação do Ministério Público recuperou diálogos dos envolvidos que reforçam as suspeitas sobre métodos “espúrios” adotados pelo grupo. Para os promotores, as conversas recuperadas revelam a “postura de vantagens e chantagem” da organização criminosa.