A professora Vânia de Souza Borges, mãe de Rafael Borges do Amaral, morto em 2024 em Uberlândia (MG), responsabiliza influenciadores digitais por atrair novos apostadores ao transmitir falsa expectativa de lucro fácil. Ela afirma que a dependência em apostas online e as perdas financeiras acumuladas levaram à morte do filho. Desde então, Vânia busca a responsabilização de criadores de conteúdo que divulgam plataformas de apostas, defendendo que eles também respondam pelos impactos dessa publicidade sobre pessoas vulneráveis.
Responsabilização de influenciadores
“Resolvi cobrar a responsabilidade dos influenciadores porque são eles que seduzem as pessoas a entrar nesse mundo. Eles simulam ganhos, fazem parecer que ganhar dinheiro é fácil, e muita gente acredita. [...] Eles lucram muito com isso e entendo que também precisam responder pelas consequências”, defendeu Vânia ao g1.
As apostas de quota fixa, conhecidas como bets, são permitidas no Brasil desde que as empresas tenham autorização do governo federal e sigam as regras do setor. Em julho, novas regras passaram a exigir alertas sobre os riscos das apostas e restringiram propagandas que associem o jogo a sucesso financeiro. Para Vânia, a exposição constante a vídeos de influenciadores mostrando supostos ganhos contribui para atrair pessoas que acabam desenvolvendo dependência e acumulando prejuízos.
Evidências encontradas no celular do filho
A professora contou que, após a morte de Rafael, teve acesso ao celular, às redes sociais e à caixa de e-mails dele. Ela afirma ter encontrado uma sequência de mensagens promocionais enviadas por plataformas de apostas, oferecendo bônus, giros gratuitos e incentivos para voltar a jogar. Segundo Vânia, o material era acompanhado por campanhas estreladas por influenciadores digitais.
Luto transformado em mobilização
Desde 2024, Vânia reúne documentos, procura órgãos públicos e cobra investigações sobre a atuação das empresas de apostas. O caso ganhou repercussão nacional após uma carta escrita por ela ser incorporada aos documentos da CPI das Bets, no Senado. Mais recentemente, a deputada federal Dandara (PT-MG) apresentou uma representação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública pedindo que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) investigue possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais consideradas predatórias e a atuação de influenciadores, afiliados e agências de publicidade ligadas ao setor. Segundo o ministério, o pedido está em análise pelas áreas técnicas.
Na avaliação da professora, a combinação entre publicidade personalizada, facilidade de acesso às plataformas e divulgação feita por personalidades da internet cria um ambiente propício para que pessoas vulneráveis permaneçam apostando mesmo diante de sucessivas perdas. “O meu desejo é que esse problema das apostas seja enfrentado de verdade para que outras mães não precisem passar pelo que eu estou passando. Eu fui mutilada pela perda do meu filho e jamais serei a mesma. O Rafael faz falta todos os dias, e eu não gostaria de ver essa mesma dor se repetir em outras famílias”, comentou.
Mudança de comportamento do jovem
De acordo com a mãe, Rafael era um menino doce, generoso e irradiava alegria por onde passava. Mas depois das apostas recorrentes e perdas financeiras, começou a ficar isolado, agressivo e já não saía mais com os amigos. A mudança, segundo ela, aconteceu de forma silenciosa. No início, Rafael dizia que estava ganhando dinheiro. A família aconselhava que ele parasse, mas as apostas deixaram de ser uma diversão para se tornarem uma rotina. Ainda segundo a professora, o filho trabalhava muito, mas já não conseguia construir patrimônio nem realizar os próprios sonhos. “Ele tinha uma moto linda e perdeu. Já não comprava mais nada para si. Trabalhava muito, mas eu ficava indignada porque todo o dinheiro ia para o vício. Ele não conseguia guardar nada.”
Vânia contou que, com o agravamento da dependência, passou a encontrar o filho acordado de madrugada jogando no celular. Ela pedia que ele desligasse a tela, tentava convencê-lo a parar, mas as conversas quase sempre terminavam em discussões. “Quando percebi que a situação estava se agravando, comecei a conversar com ele. Só que ele não aceitava que tinha um problema. Passava noites inteiras jogando e eu acordava de madrugada, implorava que ele parasse. Quando perdia dinheiro, ficava extremamente nervoso”, relatou. Em uma dessas brigas, Rafael deixou a casa da mãe e foi morar com a avó. O jovem chegou a perder o emprego porque passava as noites apostando e começou a faltar ao serviço.
Sonhos interrompidos
Ainda de acordo com a família, ele vendeu uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil, perdeu suas economias e passou a esconder da família a gravidade da dependência. Pouco antes de morrer, segundo a mãe, Rafael havia enviado um áudio a um amigo dizendo que já não conseguia controlar o vício em apostas online, além de relatar as recorrentes perdas financeiras. “Depois descobri que, naquela madrugada, ele fez transferências para plataformas de apostas. Foi quando concluí que provavelmente perdeu tudo o que tinha conseguido economizar.”
Ela afirmou ter obtido junto a um banco digital a informação de que, às 1h48 do dia da morte, Rafael realizou uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado “Jogo do Tigrinho”. A partir dessas informações, Vânia acredita que o filho perdeu nas apostas o recurso que dizia estar guardando para abrir um lava a jato. Segundo ela, as instituições financeiras nas quais Rafael mantinha contas negaram o acesso aos extratos bancários completos sob alegação de sigilo. Por isso, afirma que ainda não conseguiu calcular quanto o filho perdeu em plataformas de apostas e outros jogos online.
Tentativas de responsabilização frustradas
Após a morte do filho, Vânia procurou inicialmente a Promotoria Criminal de Uberlândia. O promotor responsável na época entendeu que a questão não possuía natureza criminal e encaminhou a demanda às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Posteriormente, em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais determinou o arquivamento da investigação. Na carta enviada ao MP, Vânia alegou que também procurou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar a abertura de inquérito, mas recebeu a informação de que “nada podia ser feito”. A mesma carta enviada ao MPMG constou entre os documentos da CPI das Bets, no Congresso Nacional, no ano passado. O parecer da senadora Soraya Thronicke, que sugeria o indiciamento de influenciadores e empresários ligados a bets, foi rejeitado por 4 votos a 3.
Caso chega ao Ministério da Justiça
Com a nova repercussão do caso, e considerando a documentação apresentada ao Ministério Público e utilizada na CPI das Bets, a deputada Dandara (PT-MG) protocolou representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitando que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais predatórias e falhas na proteção ao consumidor envolvendo plataformas de apostas. O documento também pede uma linha específica de investigação sobre a atuação de influenciadores digitais, afiliados e agências de publicidade. Ao g1, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que o processo foi recebido e está em análise pelas áreas técnicas competentes, respeitando os trâmites e procedimentos administrativos previstos.
Questionamentos às autoridades
A reportagem solicitou posicionamento ao MPMG sobre os fundamentos do arquivamento da denúncia, quais diligências foram realizadas e se existe possibilidade de reavaliação diante dos documentos apresentados pela família e dos fatos posteriormente levados ao Congresso Nacional. Também foram encaminhados pedidos de esclarecimento à Polícia Civil de Minas Gerais sobre eventual instauração de inquérito. Mas não houve respostas até a última atualização desta reportagem.



