Rafael Borges Amaral, de 26 anos, acordava às 5h para trabalhar em um lava a jato e só voltava para casa à noite. Com o tempo, as noites de descanso foram substituídas por horas diante do celular fazendo apostas. Dois anos após a morte do filho, a mãe dele, a professora Vânia de Souza Borges, afirma que aqueles foram os primeiros sinais de dependência em jogos de apostas. Ela busca responsabilizar empresas do setor e cobra uma investigação sobre a atuação das plataformas.
Rotina de trabalho e vício em apostas
Segundo Vânia, Rafael trabalhava durante todo o dia, mas ao chegar em casa continuava apostando até a madrugada. "Ele trabalhava muito. Acordava às 5h da manhã e, às vezes, só chegava em casa à noite. Só que, quando chegava, continuava jogando. Quando eu via aquilo, ficava muito preocupada. Eu aconselhava, implorava para ele parar, dizia que era golpe, mas ele insistia em continuar. Parecia estar cego pelo vício", contou ao g1.
A preocupação da família não era apenas com o dinheiro perdido, mas também com o desgaste físico e emocional. Rafael passou a dormir menos e seu comportamento mudou. Conhecido por ser muito responsável no trabalho, ele começou a faltar ao serviço com frequência. "Ele não era um rapaz de faltar ao trabalho. Era extremamente responsável, amava o que fazia. Mas, de repente, começou a faltar para ficar jogando em casa", relatou a mãe.
Consequências financeiras e sociais
O proprietário do posto onde Rafael mantinha o lava a jato rescindiu o contrato por causa das faltas frequentes. Após perder o negócio, ele conseguiu outro emprego e passou a trabalhar até 16 horas por dia, mas continuava destinando parte do dinheiro às apostas. "O dinheiro dele a gente não via. Eu imaginava que estava indo para o jogo. Ele deixou de comprar roupas, de cuidar dele mesmo, de realizar os próprios sonhos", disse Vânia.
Rafael chegou a vender uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil e escondeu da família a gravidade da dependência. Em um áudio enviado a um amigo, desabafou que tinha perdido tudo: os amigos, a mãe, as irmãs. "O vício fez ele acreditar que estava sozinho", afirmou a mãe.
Morte e investigações frustradas
Pouco antes de morrer, Rafael fez transferências para plataformas de apostas. Vânia obteve de um banco digital a informação de que, às 1h48 do dia da morte, ele transferiu R$ 30 para uma conta vinculada ao "Jogo do Tigrinho". As instituições financeiras se recusaram a fornecer extratos completos, alegando sigilo bancário, impedindo o cálculo do total perdido.
Após a morte, Vânia procurou a Promotoria Criminal de Uberlândia, mas o promotor entendeu que a questão não era criminal e encaminhou para as promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais arquivou a investigação. Ela também procurou a Polícia Civil, que informou que "nada podia ser feito".
Repercussão nacional e novas medidas
A deputada Dandara (PT-MG) protocolou representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública pedindo que a Senacon e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa e estratégias predatórias das plataformas de apostas, além da atuação de influenciadores digitais. O Ministério da Justiça informou que o processo está em análise.
"Quando soube que não haveria investigação, fiquei extremamente frustrada. Disseram que foi um suicídio e que ninguém o induziu. Mas eu não me dei por vencida. Quero respostas e acredito que quem lucra incentivando pessoas vulneráveis também precisa ser responsabilizado", declarou Vânia.



