Em 20 de julho de 1934, morria Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, aos 90 anos, em Juazeiro do Norte. Cego de um olho e com visão reduzida do outro, mesmo após cirurgia de catarata que exigiu empréstimo, o padre passou os últimos dias recolhido no casarão da rua São José. A causa da morte, segundo documento da Igreja Católica, foi "faleceu de intestino". Biografias apontam problemas digestivos como motivo principal. O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello escreveu que, após cirurgia de catarata sem sucesso, a saúde piorou: "Um desfalecimento orgânico irreversível instalou-se a partir da função digestiva, chegando ao ponto de obstruir-lhe por inteiro os intestinos nos últimos dias de vida".
Últimas palavras e velório histórico
Na madrugada de 20 de julho, o casarão estava em vigília. Segundo o jornalista Lira Neto, as últimas palavras de Padre Cícero foram: "No Céu, eu rogarei a Deus por todos vocês..." e "meu pai, meu pai, meu pai...". A segunda frase foi ouvida apenas pela afilhada Amália Xavier de Oliveira, que se aproximou da boca do padre. O velório durou cerca de 30 horas e contou com dois caixões. O historiador Roberto Júnior explica: "Diante da causa mortis, tivemos um processo de degradação do corpo mais acelerado e, devido ao inchaço, foi necessária a confecção de uma segunda urna porque a primeira já estava com os limites extrapolados". O cortejo reuniu 60 mil pessoas.
Curiosidades e legado
Durante o velório, o farmacêutico José Geraldo da Cruz, futuro prefeito de Juazeiro do Norte, organizou a exibição do caixão em uma das janelas do casarão. Alguém gritou "O Padim Ciço ressuscitou", mas era apenas o braço direito do padre, que caiu devido ao manuseio. Após o sepultamento no altar da Capela do Socorro, o Dia de Finados tornou-se romaria, com milhões visitando o túmulo. O processo de beatificação está em análise no Vaticano.
Locais de memória
O Casarão da rua São José, hoje museu administrado pelos Salesianos, tem oito janelas na fachada; uma era a favorita do padre, onde ele conversava com devotos. Proibido de celebrar missas, usava a janela como púlpito. O local abriga objetos pessoais, incluindo animais empalhados. Aberto de segunda a sexta (7h30-12h e 14h-17h) e sábado (7h30-12h), com entrada gratuita. O Memorial Padre Cícero, fundado em 1988, reúne acervo diverso, como livros de medicina e cartas de romeiros pedindo conselhos médicos. A bibliotecária Thalyta Alencar destaca: "É um acervo bastante diverso, que vai desde livros de línguas estrangeiras e literatura até livros de medicina". Aberto de segunda a sexta, das 8h às 12h e 13h às 17h, entrada gratuita. O Casarão do Horto, no ponto mais alto da cidade, era local de descanso do padre e hoje é museu com esculturas em tamanho real e ex-votos. Administrado pelos Salesianos, aberto diariamente das 7h às 17h, entrada gratuita.



