O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) manifestou repúdio à declaração machista de seu conselheiro informal, o blogueiro Paulo Figueiredo, que afirmou que 'mulher vota estatisticamente muito mal'. Em nota, Flávio disse não ser responsável pelas falas do amigo, mas críticos apontam que o posicionamento tardio revela cálculo político para não desagradar a base bolsonarista.
Declaração polêmica e repercussão
Em uma live no dia 25 de junho, Paulo Figueiredo afirmou: 'Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido'. A fala gerou reações imediatas. A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) encaminhou notícia-crime à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o influenciador por violência política de gênero.
Flávio Bolsonaro, que já havia participado de lives com Figueiredo, demorou a se posicionar. Apenas após a repercussão negativa, ele publicou um vídeo repudiando a declaração, mas ressaltou que 'não pode ser responsabilizado pelo que cada um fala'. Para analistas políticos, o gesto é tardio e visa conter danos à imagem do clã Bolsonaro entre o eleitorado feminino.
Mapa falso de votação feminina viraliza
Paralelamente, um mapa falso que supostamente mostrava a divisão dos votos femininos por estado no segundo turno de 2022 voltou a circular nas redes sociais. A imagem indicava que a maioria das mulheres votou em Lula, exceto em Roraima, Rondônia e Santa Catarina. Paulo Figueiredo republicou o conteúdo no X (antigo Twitter) como 'prova' de sua tese.
O Estadão Verifica checou e concluiu que o mapa é falso. A Justiça Eleitoral não possui dados de votação por gênero, em razão do sigilo constitucional do voto. Em nota, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que 'não é possível associar os votos registrados na urna à identidade ou ao perfil cadastral da eleitora ou do eleitor'. Além disso, o mapa apresenta inconsistências matemáticas, como no caso do Acre, onde Bolsonaro venceu com 70,3% dos votos, mas o mapa aponta maioria feminina para Lula. Segundo o engenheiro Franklin Weise, colunista do Estadão, para que isso fosse possível, seria necessário que 92% dos homens tivessem votado em Bolsonaro, o que é inverossímil.
Dados oficiais e pesquisas
O TSE esclareceu que o portal eleitoral reúne apenas estatísticas gerais sobre o eleitorado, como gênero, estado civil e idade, sem cruzar com o voto. Pesquisas de intenção de voto, como a do Datafolha de 27 de outubro de 2022, mostraram que Lula tinha 52% das intenções entre mulheres e 46% entre homens, enquanto Bolsonaro tinha 42% e 48%, respectivamente. Não há levantamento de boca de urna por gênero.
O mapa falso já circulava desde maio, mas ganhou força após a declaração de Figueiredo. O Verifica procurou o influenciador, mas não obteve retorno. O Aos Fatos também publicou checagem sobre o tema.
Cálculo político e reações
Para especialistas, o repúdio tardio de Flávio Bolsonaro evidencia o desconforto do bolsonarismo com o tema. O ex-presidente Jair Bolsonaro tem buscado melhorar sua imagem entre as mulheres, segmento onde Lula lidera nas pesquisas. A fala de Figueiredo, aliado próximo, pode prejudicar esse esforço. 'Flávio tenta se distanciar, mas o silêncio inicial e a relação próxima com o blogueiro mostram que a pauta misógina ainda encontra eco no grupo', afirma a cientista política Maria do Socorro Braga, da UFSCar.
O episódio reacende o debate sobre violência política de gênero e a responsabilização de figuras públicas por declarações que incentivam a discriminação. A PGR ainda não se manifestou sobre a notícia-crime apresentada por Soraya Thronicke.



