O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, determinou uma auditoria em todos os contratos do Corpo de Bombeiros após a descoberta de um convênio de R$ 25 milhões entre a corporação e o Instituto Rio Metrópole (IRM), que é investigado por suspeitas de corrupção. A minuta do convênio previa o repasse de recursos do Fundo Especial do Corpo de Bombeiros (Funesbom) ao instituto, mas foi suspensa após parecer contrário da Procuradoria-Geral do Estado (PGE).
Relação entre comandante e ex-presidente do IRM
Pesou na decisão de Couto a proximidade entre o comandante-geral do Corpo de Bombeiros, coronel Tarciso Salles, e o então presidente do IRM, Davi Perini Vermelho, conhecido como Didê. Didê está preso e é investigado por suspeita de corrupção em contratos que somam R$ 86 milhões. Por ser bombeiro da reserva, ele está sob custódia do Grupamento Prisional do Corpo de Bombeiros, comandado pelo tenente-coronel Sirlei Gomes, que também mantém relação de amizade com Didê.
Em março deste ano, Didê comemorou o aniversário ao lado de Sirlei Gomes e do comandante-geral Tarciso Salles. Na ocasião, Salles gravou um vídeo de felicitações: "Fala, Didê, meu amigo, tudo bem? Estou numa agenda aqui em Macaé, uma agenda do governador, mas não poderia deixar de gravar esse vídeo te parabenizando. Obrigado por tudo, meu amigo, você é um amigo fiel, sempre presente."
Medalha e histórico de investigações
A relação entre os dois é antiga. Em novembro de 2024, Tarciso Salles entregou a Didê a Medalha Mérito Avante Bombeiro, honraria concedida a personalidades que se destacaram por benefícios prestados à comunidade, à corporação ou ao patrimônio da instituição. Segundo o Ministério Público, porém, o patrimônio público já havia sido lesado por Didê. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, ele foi preso acusado de vender respiradores superfaturados ao governo de Santa Catarina. De acordo com o MP, muitos dos equipamentos eram considerados imprestáveis.
A prisão levou à abertura de uma investigação no Corpo de Bombeiros. Didê foi chamado para prestar esclarecimentos ao Conselho de Disciplina em junho de 2023. Mesmo assim, cerca de um ano e meio depois, recebeu a medalha das mãos de Tarciso Salles. Em publicações nas redes sociais, Didê agradeceu a homenagem e, meses depois, parabenizou o comandante pelo aniversário, chamando-o de "ser humano inigualável, incrível e justo". As imagens foram publicadas no perfil do ex-presidente do IRM, que passou a ser restrito após sua prisão.
Convênio de R$ 25 milhões e parecer da PGE
A ligação entre Didê e Tarciso Salles também se refletiu nas instituições comandadas por eles. Os dois participaram das tratativas para um convênio destinado à implantação de um sistema de monitoramento de desastres naturais. A proposta previa um investimento de R$ 25 milhões, com recursos do Funesbom repassados ao Instituto Rio Metrópole. As negociações chamaram a atenção da gestão interina do governador Ricardo Couto.
A Procuradoria-Geral do Estado emitiu parecer contrário ao convênio, por entender que os recursos do fundo dos Bombeiros só podem ser utilizados em investimentos da própria corporação, como compra de viaturas e equipamentos. Após o parecer da PGE, em abril, o processo administrativo ficou paralisado. Ele foi encerrado apenas no fim da semana passada, depois de uma reunião entre o governador em exercício e o comandante-geral dos Bombeiros.
Auditoria e exonerações
A proximidade entre Didê e Tarciso Salles acendeu um alerta no Palácio Guanabara. O governo decidiu auditar todos os contratos do Corpo de Bombeiros. Segundo apurado, a medida foi adotada para manter o comandante no cargo. Em meio às investigações sobre o Instituto Rio Metrópole, o governo intensificou as exonerações no órgão. O próprio Didê foi exonerado, e outras 13 pessoas também deixaram seus cargos nesta semana. A expectativa é que novas exonerações sejam publicadas no Diário Oficial desta quarta-feira (22).
Defesa de Didê
Davi Perini Vermelho, por meio de sua defesa, esclareceu que todos os contratos e convênios firmados em sua gestão como presidente do IRM foram geridos e fiscalizados pelas respectivas diretorias demandantes, inclusive com fundamento em despachos e atestos emitidos pelos setores técnicos responsáveis, além de contarem com pareceres jurídicos do procurador geral da autarquia, pertencente à Procuradoria Geral do Estado. Em relação ao convênio em questão, a defesa ressaltou que o processo não faz parte da operação conduzida pelo MPRJ e que a celebração do mesmo respeitou o rito legal exigido, sendo que o sistema, caso fosse implantado, representaria um grande avanço para o Estado do Rio de Janeiro na política de prevenção de sequelas consequentes de desastres naturais. Por fim, reafirmou sua confiança na justiça e reiterou que convênios, firmados dentro da legalidade, entre órgãos governamentais para a realização de políticas públicas que possam beneficiar a população não podem ser criminalizados e/ou diminuídos pelo fato dos gestores destes órgãos possuírem relação de amizade, construídas anteriormente e independentemente dos cargos que ocupam ou que venham a ocupar.
Nota do Corpo de Bombeiros
Em nota oficial, a Secretaria de Estado de Defesa Civil esclareceu que a proposta apresentada pelo Instituto Rio Metrópole foi submetida ao regular fluxo administrativo previsto para esse tipo de procedimento, sendo analisada pelas áreas técnica, financeira e jurídica da própria Secretaria e do Corpo de Bombeiros, além das demais instâncias competentes da Administração Pública Estadual. Durante a instrução do processo administrativo, as áreas técnicas, financeiras e jurídicas emitiram manifestações acerca da proposta, concluindo pela inviabilidade de seu prosseguimento nos termos em que foi apresentada, entendimento que permaneceu convergente com as manifestações dos demais órgãos jurídicos competentes do Estado. Diante desse conjunto de manifestações, o Secretário de Estado de Defesa Civil e Comandante-Geral, coronel Tarciso Antônio de Salles, determinou o não prosseguimento da proposta, observando integralmente os pareceres constantes do processo administrativo e os mecanismos de controle que regem a Administração Pública. A nota ainda afirma que não houve transferência de recursos públicos do Funesbom no âmbito da proposta analisada.
Em outra nota, a Secretaria esclareceu que todos os procedimentos adotados na custódia do militar no Grupamento Especial Prisional observaram rigorosamente a legislação vigente e as determinações da autoridade judicial competente. A unidade é submetida à fiscalização permanente dos órgãos de controle competentes, incluindo a Corregedoria Interna e o Poder Judiciário, por meio de inspeções periódicas realizadas pela Vara de Execuções Penais. Na presente data (21 de julho de 2026), a Vara de Execuções Penais realizou inspeção não programada na unidade, permanecendo no local por mais de 40 minutos, sem registrar qualquer irregularidade nas condições de custódia ou no funcionamento do Grupamento Especial Prisional. O tenente-coronel Sirlei Gomes Gonçalves exerce a função de comandante do Grupamento Especial Prisional desde 20 de maio de 2025, desempenhando suas atribuições em conformidade com a legislação, sob permanente fiscalização dos órgãos competentes.



