Alerta ignorado em voo da Voepass é desprezado por pilotos, diz Cenipa
Alerta ignorado em voo da Voepass é desprezado por pilotos

A fabricante francesa ATR implementou alterações nos procedimentos de manutenção e atualizou sistemas de segurança de suas aeronaves após o acidente com o voo 2283 da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, resultando na morte de 62 pessoas. As medidas constam no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado nesta quinta-feira (23). O documento aponta falhas da companhia aérea, da tripulação e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) entre os fatores que levaram à tragédia.

Alterações no manual de manutenção

De acordo com o Cenipa, a ATR revisou o procedimento de remoção e instalação do sensor de posição do profundor esquerdo, conhecido como "syncro transmitter". Durante a investigação, peritos identificaram que esse componente foi montado incorretamente na aeronave PS-VPB, que operava o voo acidentado. No entanto, a conclusão foi de que essa falha não influenciou o acidente. Ainda assim, a fabricante alterou o manual para alertar operadores e equipes de manutenção sobre o risco de erro na instalação da peça.

Novo software para monitoramento de desempenho

O relatório também informa que a ATR desenvolveu a versão 2.0 do software do sistema APM (Aircraft Performance Monitoring), que monitora continuamente o desempenho da aeronave, especialmente em condições de acúmulo de gelo. A nova versão foi certificada pela Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) e começou a ser implementada via boletim de serviço. Entre as mudanças estão: monitoramento contínuo da performance durante todo o voo, independentemente da detecção de gelo; reajuste dos limites mínimos de velocidade, considerando exclusivamente a velocidade mínima segura para operações em condições de gelo; e criação de um intervalo de 60 segundos antes que os alertas desapareçam do sistema, evitando o efeito de "flickering" (alertas que surgem e desaparecem rapidamente). Segundo o Cenipa, esse comportamento pode levar as tripulações a se acostumarem com os avisos e a dar menos importância às mensagens emitidas pela aeronave.

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Alerta ignorado é prática comum entre pilotos

O Cenipa destacou que o alerta ignorado pela tripulação do voo da Voepass é "menosprezado por vários pilotos no Brasil". O alerta "increase speed", atualmente classificado como atenção (cor âmbar), indica a necessidade de aumentar a velocidade para manter margem de segurança. O órgão recomenda que ele seja elevado para advertência (cor vermelha), o que pode aumentar a percepção sobre a perda de desempenho.

Recomendações à fabricante

Além das mudanças já implementadas, o Cenipa emitiu recomendações de segurança à EASA para que a agência atue junto à ATR na adoção de novas melhorias. Entre elas: revisão do procedimento "degraded performance", usado quando a aeronave perde desempenho devido ao gelo, para exigir ação imediata da tripulação; aprimoramento dos procedimentos relacionados ao modo "low bank" em condições de gelo; e que novos parâmetros sejam registrados pelo gravador de dados de voo (FDR), incluindo falhas no sistema de degelo e ativação do "stick pusher".

Investigação detalhada

Ao longo da investigação, o Cenipa realizou dezenas de perícias, incluindo análise das duas caixas-pretas, reconstrução completa do voo, exames nos motores e sistemas de degelo, análise das condições meteorológicas, entrevistas com pilotos e mecânicos, estudo de mais de 15 mil voos da mesma frota, testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500.

Relembre o acidente

O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo morreram. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde 2007.

Posicionamento da Voepass

A Voepass informou que a tragédia foi o episódio mais difícil de sua história e que sempre esteve solidária às famílias das vítimas, atuando de forma transparente junto ao Cenipa. A empresa afirmou que adota procedimentos sérios de segurança e que a tripulação era experiente, com mais de 5 mil horas de voo e treinamentos atualizados.

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