Especialistas divergem sobre aumento de etanol na gasolina
Divergência sobre aumento de etanol na gasolina

O governo federal estuda aumentar o percentual de etanol anidro misturado à gasolina, dos atuais 27% para 30%. A medida, que visa reduzir emissões de carbono e fortalecer o setor sucroenergético, gerou debate entre especialistas. Enquanto alguns defendem a mudança como benéfica para o meio ambiente e a economia, outros alertam para possíveis danos a motores e aumento de custos.

Proposta em discussão

O Ministério de Minas e Energia (MME) confirmou que a proposta está em análise técnica. A elevação para 30% representaria um acréscimo de três pontos percentuais na mistura, que já é uma das mais altas do mundo. Atualmente, o Brasil permite até 27,5% de etanol anidro na gasolina, mas a mistura praticada é de 27%.

Segundo o MME, a medida poderia reduzir em até 5% as emissões de CO2 do setor de transportes, além de gerar demanda adicional para a produção de cana-de-açúcar. O setor sucroenergético, que enfrenta dificuldades com a queda nos preços do açúcar, vê na proposta uma oportunidade de recuperação.

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Posições favoráveis

Para a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), o aumento é viável tecnicamente. "Estudos mostram que motores flex e mesmo os convencionais suportam até 30% de etanol sem adaptações. Além disso, o etanol brasileiro é renovável e reduz a dependência de combustíveis fósseis", afirmou o diretor técnico da UNICA, João Carlos de Souza.

Ambientalistas também apoiam a medida. "O etanol de cana-de-açúcar tem balanço energético positivo e reduz emissões. Aumentar sua participação na gasolina é um passo importante para a descarbonização", disse Maria Fernanda Reis, do Observatório do Clima.

Riscos apontados

Por outro lado, engenheiros automotivos e associações de consumidores questionam a segurança da mistura. "Motores mais antigos, especialmente os carburados, podem sofrer com corrosão e entupimento de bicos injetores. O etanol é higroscópico e atrai água, o que pode danificar o sistema de combustível", alerta Carlos Alberto Gomes, engenheiro mecânico e consultor da SAE Brasil.

A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) realizou testes que indicam perda de potência de até 3% com a mistura de 30%. "Em veículos com alta quilometragem, o risco de falhas aumenta. Seria necessário um programa de adaptação ou substituição de componentes", complementa Gomes.

Impactos econômicos

Do ponto de vista econômico, o aumento do etanol pode pressionar os preços dos alimentos, já que a cana compete com outras culturas por área plantada. "Se o etanol ficar mais caro, a gasolina também pode subir, pois a mistura é obrigatória. O consumidor final pagará a conta", argumenta o economista Roberto Silva, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Dados do Ministério da Agricultura indicam que a produção de cana-de-açúcar cresceu 2% em 2025, mas a área plantada se expandiu 1,5%, o que pode indicar limite para expansão sem afetar outras culturas.

Próximos passos

O MME informou que a decisão final depende de testes adicionais realizados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). A previsão é que o parecer técnico seja divulgado em até 90 dias. Se aprovada, a nova mistura pode entrar em vigor em 2027.

Enquanto isso, a discussão continua dividindo opiniões. Para a UNICA, o Brasil pode liderar a transição energética. Para os críticos, é preciso cautela para não comprometer a frota existente. O debate promete se intensificar nos próximos meses.

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