A proposta do presidente da Fifa, Gianni Infantino, de criar uma empresa privada para gerir as competições da entidade, com venda de ações a investidores, desencadeou uma crise de confiança entre as federações nacionais e pode ameaçar sua permanência no cargo. A informação é da emissora inglesa Sky Sports, que relata um movimento crescente de insatisfação entre os membros da Fifa.
Oposição imediata de Uefa e Concacaf
As primeiras reações negativas partiram da Uefa e da Concacaf, que rejeitaram de imediato a ideia. A associação europeia foi além e anunciou que suas 55 seleções boicotarão a Copa do Mundo caso Infantino insista no projeto. Somadas, Uefa e Concacaf representam 96 associações nacionais filiadas à Fifa, o equivalente a 43% dos 211 membros da entidade. A Fifa marcou para 19 de setembro a votação das associações sobre a criação do fundo de investimento privado.
Reações das demais confederações
A Confederação Asiática de Futebol (AFC) não se posicionou oficialmente, mas emitiu nota com duras críticas à proposta. As confederações da África (CAF) e da Oceania (OFC) convocaram reuniões extraordinárias para debater o assunto. Já a Conmebol ainda não se manifestou oficialmente. Segundo a Sky Sports, aumenta a crença de que Infantino não conseguirá sobreviver a esta controvérsia, diante de uma revolta aberta entre os membros da Fifa.
Antecedentes de crise e reeleições
O antecessor de Infantino, Joseph Blatter, deixou o cargo mais cedo devido ao escândalo do Fifagate, que levou vários dirigentes à prisão. Blatter convocou um congresso extraordinário em 2016, que elegeu Infantino como sucessor. Desde então, Infantino foi reeleito por aclamação em 2019 e 2023, com mandato até 2027. No entanto, esta é a primeira vez que enfrenta dificuldades reais para se manter na presidência. Críticas anteriores incluíram a criação do Prêmio da Paz da Fifa, entregue ao presidente Donald Trump, e a polêmica suspensão do atacante americano Balogun durante a Copa do Mundo.
Ameaça de boicote e impacto nas competições
O boicote prometido pela Uefa pode afetar diretamente a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. A proposta, anunciada na última terça-feira, prevê a criação de uma empresa privada para operar a comercialização e organização de todas as competições da Fifa. A Uefa foi uma das primeiras a se opor, recebendo apoio da Concacaf e da AFC. Essas três entidades somam 143 dos 211 membros da Fifa, ampla maioria. Em nota oficial, a Uefa declarou: “Rejeitamos, de forma unânime e inequívoca, a proposta da Fifa de transferir participações na propriedade da Copa do Mundo e de outras competições para investidores privados. A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento.”
Detalhes da Fifa Forward Enterprise
A nova subsidiária, chamada Fifa Forward Enterprise (FFE), teria controle majoritário da entidade e ficaria responsável por consolidar as operações comerciais e as principais competições. A Fifa estima que a FFE valha 20 bilhões de dólares (cerca de R$ 102,3 bilhões). A venda de 4,2 bilhões de dólares (R$ 21,5 bilhões) em ações significaria que os investidores privados seriam minoritários. Com o dinheiro arrecadado, a Fifa promete aumentar a quantia distribuída para cada federação nacional: dos atuais 41 milhões de reais por país, passaria para 102 milhões até a Copa de 2030, 112,5 milhões até 2034 e 123 milhões até 2038. A entidade afirma que a injeção de capital privado pode ser decisiva para “alcançar todo o potencial dos direitos de transmissão e dos patrocínios da Fifa em todo o seu portfólio de competições de futebol masculino, feminino e de base”.
Processo de votação e posição de Infantino
Infantino gravou um vídeo explicando que a proposta passará por votação de todas as associações-membro e do conselho da Fifa. Ele também defendeu que a venda de ações permitiria aumentar o repasse para cada federação, de 8 milhões para 20 milhões de dólares. A nota da Uefa, porém, critica a falta de consulta prévia: “É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância tenha sido concebida em segredo e levada à iminência de aprovação sem qualquer consulta significativa. Isso não é apenas uma falha profunda de liderança, mas uma abdicação do dever da Fifa como guardiã do futebol mundial.”



