Vínculo Eleitoral, Cinismo, IA e o Fracasso da Seleção Brasileira
Vínculo Eleitoral, Cinismo, IA e Fracasso da Seleção

Vínculo com o eleitor e o sistema proporcional

O artigo de Carlos Pereira (Por que esquecemos em quem votamos?, 6/7, A9) retoma o debate sobre o sistema eleitoral brasileiro de voto proporcional, que dificulta a lembrança do candidato escolhido, pois os eleitos não representam os eleitores, mas sim grupos de interesse. Em São Paulo, por exemplo, houve cerca de 1,9 mil candidatos a deputado estadual em 2022 para 94 vagas. Mesmo considerando suplentes, quem votou nos mais de 1,8 mil candidatos não eleitos, um mês depois já não se lembra em quem votou. Além disso, muitos dos 94 eleitos não têm vínculo com seus eleitores, que podem estar entre os mais de 34,6 milhões de paulistas espalhados pelas regiões do estado. Por isso, movimentos e grupos defendem o voto distrital misto, que permite dupla vinculação: por distrito e por opção partidária. Sem mudar o sistema, deputados estaduais e federais continuarão sem vínculo com os eleitores, e a maioria destes não terá razão para se lembrar deles.

República de cinismo

Perfeito o diagnóstico do engenheiro Marcello Brito no artigo A República sem vergonha: anatomia do cinismo brasileiro (Estadão, 3/7). O estado de cinismo descrito por Brito será a destruição total da república brasileira, se não houver um tremor sísmico moral que quebre esse ciclo de mediocridade institucional. A História mostra poucos exemplos de países que conseguiram sair do atoleiro institucional nos últimos cem anos: Japão (Estado eficiente, economia pujante, instituições estáveis), Alemanha (democracia parlamentar robusta, administração profissionalizada) e Costa Rica (democracia estável na América Central). Reformas exigem rupturas históricas claras (guerras ou transições de regime) e lideranças comprometidas com o fortalecimento institucional; o sucesso depende de fatores como educação cívica, independência judicial e burocracias profissionais. Alguém tem a resposta de como fazer isso no Brasil? Não sei, mas está na hora de o intellectus brasileiro começar a pensar e agir a respeito.

Inteligência artificial: desafios do pensamento

Em artigo no Estadão (A IA potencializa ou atrofia mentes?, 4/7, A21), o biólogo Fernando Reinach faz uma reflexão atual: a inteligência artificial (IA) vai ampliar nossa capacidade de pensar ou poderá enfraquecer habilidades humanas como interpretar, analisar, imaginar, criar e tomar decisões? Essa pergunta merece discussão, principalmente na educação. A IA já faz parte do dia a dia: em segundos, escreve textos, resolve problemas, traduz idiomas, cria imagens e responde a perguntas. Seus benefícios são inegáveis, mas toda grande inovação traz desafios. Na educação, cresce o risco de o estudante recorrer à IA apenas para obter respostas prontas. Quando isso acontece, o trabalho pode ser entregue, mas não significa que houve aprendizagem. Saber a resposta é diferente de compreender o caminho até o resultado. Talvez a maior mudança de atitude necessária seja incentivar o estudante a pedir que a IA ensine, explique o raciocínio, apresente exemplos, esclareça dúvidas e mostre passo a passo como chegar à solução. A IA deve ser ferramenta para aprender, não atalho para evitar o esforço de pensar. O mesmo vale para o professor: a IA pode ser aliada, mas jamais deve ocupar seu lugar. É na convivência com o professor que o aluno aprende a questionar, argumentar, interpretar, reconhecer erros e desenvolver autonomia intelectual. A tecnologia oferece respostas; o professor ensina a pensar.

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Bets: roletas da morte

As bets atuam como propulsoras da pobreza e da desigualdade social, ironicamente sob a conivência do governo, que afirma combater esses problemas. Por quê? Porque lucra com elas, aumentando a arrecadação e o mau uso dos recursos – seja pela corrupção, seja pela manutenção de privilégios. Simples assim.

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Flávio Bolsonaro e pesquisas eleitorais

A atitude de Flávio Bolsonaro contra os interesses do Brasil é esperada, pois seu grupo político vive à mercê de Donald Trump – e não é de hoje (Muito ajuda quem não atrapalha, Estadão, 7/7, A3). Inacreditável é saber que a maioria dos empresários brasileiros ainda apoia tal candidatura. As pesquisas eleitorais mostram o mesmo quadro nas primeiras posições para a corrida presidencial. Depois reclamam. Reclamam do mesmo que fazem a cada quatro anos? Como querer mudança se o eleitor não muda? Parece que gostam. Vejamos até quando.

Favela do Moinho: lição de superação

Durante décadas, a Favela do Moinho foi símbolo da degradação urbana, da presença do crime organizado e da incapacidade do poder público de recuperar uma área estratégica da capital paulista. Parecia um problema insolúvel. Após um processo que envolveu governo estadual e União, a comunidade foi desocupada, as famílias passaram a receber apoio para reassentamento e o terreno começa a dar lugar a um parque público. Houve divergências sobre as remoções, mas o fato é que um impasse histórico começou a ser enfrentado. A principal lição: quando há planejamento, coordenação entre os governos e disposição para enfrentar áreas dominadas pela criminalidade, mudanças são possíveis. O Estado não pode aceitar territórios onde a lei deixa de prevalecer. O caso do Moinho mostra que problemas considerados crônicos não são necessariamente insolúveis. Quando existe vontade política, eles podem começar a ser resolvidos. Governar é enfrentar problemas, não conviver com eles.

Misoginia e regressão social

Grupos extremistas já criam vocabulário misógino próprio (Estadão, 7/7, A14). Quando leio notícias como esta, mais vejo que a sociedade está regredindo intelectual e socialmente. Jesus veio a este planeta mostrar o caminho para evoluir, tanto como indivíduos quanto como sociedade, e atendia a todos indistintamente em um mundo teoricamente mais primitivo que o de hoje. Ou seja, todos somos iguais, todos temos importância, independentemente de sexo, cor, raça ou religião. Enquanto um cidadão não conseguir ver o outro como outro cidadão, com os mesmos direitos e deveres, continuaremos tendo comportamentos desequilibrados, que são atitude puramente humana. Vale lembrar a frase: “Quanto mais conheço os seres humanos, mais admiro os animais”.

Seleção brasileira: vergonha e frustração

É triste, mas é a realidade. Em pouco mais de oito décadas de vida, jamais vi uma seleção brasileira fazer uma apresentação tão medíocre como neste confronto de domingo, no qual perdeu por 2 a 0 para a Noruega e caiu prematuramente nas oitavas de final. A seleção de Carlo Ancelotti deveria comer grama em campo e fazer prevalecer o fato de sermos pentacampeões do mundo. Mas, infelizmente, parecia formada por jogadores amadores, inexperientes e que jamais haviam disputado uma competição internacional. Durante toda a partida, assistiram à Noruega jogar. Pela liberdade que deram em campo, a impressão é que os noruegueses escolheram com tranquilidade o momento de fazer seus dois gols. Faltou ao Brasil o brio e a garra que demonstraram jogadores do Paraguai, de Cabo Verde, entre outros. O pior: mesmo nada jogando, ainda perdemos gols. Ou seja, se tivéssemos nos empenhado mais e feito marcação forte no meio de campo, diante do fraco comportamento da defesa norueguesa, poderíamos ter vencido até de goleada. Faltou liderança fora e dentro de campo. Não adianta criticar a CBF pelos erros administrativos passados, já que o técnico é um dos mais vitoriosos do mundo, e a maioria dos jogadores atua nas melhores equipes do planeta. A Copa já era. Até 2030, Brasil.

Diante do desastroso naufrágio da seleção pentacampeã na vergonhosa derrota por 2 a 1 para a sólida Noruega nas oitavas de final, cabe dizer que a canarinho não merece nem faz jus à sua imensa, fiel e apaixonada torcida de mais de 200 milhões de brasileiros, assim como o vitorioso técnico italiano Carlo Ancelotti não merece nem faz jus ao astronômico salário de R$ 5 milhões por mês. Muda, Brasil.

A queda diante da Noruega carimbou o fim trágico de uma era para o futebol brasileiro. Mais do que uma eliminação precoce, o resultado escancarou a asfixia da nossa criatividade. O futebol que já foi sinônimo de arte, drible e improviso acabou engolido pelo pragmatismo tático. Embora a essência do “futebol arte” ainda resista nas várzeas e nas praias, o topo da pirâmide hoje entrega um choque de realidade doloroso. A seleção atual não é um time, mas um amontoado de talentos perdidos em esquemas engessados. Sem liderança, sem liga e sem a ousadia que nos fez únicos, o Brasil assiste, apático, à perda de sua própria magia.

Situação da CBF e frustração com Ancelotti

A situação da Confederação Brasileira de Futebol nada mais é do que o reflexo do que é o Brasil: desmandos, ingerências “políticas”, incompetência, arrogância e tantas outras mazelas que nos assolam. A doença do País se alastrou para todas as áreas, e não será um técnico brilhante e competente que conseguirá resolver nosso problema futebolístico. A questão é estrutural e moral. A derrota para alguma seleção mais bem estruturada era questão de tempo. Aliás, o Marrocos já havia dado o aviso na primeira partida, e ainda bem que ficou só nos 2 a 1 diante da Noruega.

Desta vez não deu. Carlo Ancelotti, contratado a peso de ouro, decepcionou. Esperava-se que, sendo um dos treinadores mais vitoriosos do futebol mundial, resolvesse os problemas da nossa seleção. Não foi o que aconteceu. Fica uma pergunta: se Ancelotti é considerado um técnico tão excepcional, por que nunca assumiu a seleção italiana, justamente quando o país atravessou uma de suas maiores crises no futebol, ficando fora de duas Copas consecutivas? Sua passagem pelo Brasil reforça que há uma diferença enorme entre comandar uma seleção e treinar um grande clube. Na seleção, o tempo de preparação é escasso, não existe mercado de transferências, e o treinador depende exclusivamente dos atletas disponíveis. Já os grandes clubes contam com elencos recheados de alguns dos melhores jogadores do mundo. Carlo Ancelotti não saiu barato. Seu salário foi estimado em R$ 60 milhões por ano, ou cerca de R$ 5 milhões por mês. Para um investimento dessa magnitude, esperava-se um desempenho muito melhor. Pelo contrário: foi um dos piores resultados do Brasil em Copa do Mundo, frustrando as expectativas criadas em torno de sua contratação.

A seleção brasileira mostrou ao mundo como é entrar em campo e não jogar absolutamente nada.

O maior papel do futebol foi o de ensinar democracia. Foi o de revelar que não se ganha sempre e que o mundo é instável como uma bola.

Donald Trump e a Fifa

Trump pediu para Infantino rever suspensão de Balogun por cartão vermelho (Estadão, 6/7). É inacreditável a criatividade do atual presidente americano, assim como a subserviência da Fifa. Agora, no mundo do futebol, temos mais uma inovação: o VAR do VAR.

Se as confederações e entidades tivessem vergonha, tirariam todas as seleções da Copa do Mundo. Que vergonha saber que o presidente da Fifa é um capacho de Donald Trump.

Agora temos, na arbitragem da Copa do Mundo, o árbitro, a equipe de VAR e Donald Trump. A Fifa aceita as ordens do presidente americano como se ele tivesse esse poder. Uma vergonha e um verdadeiro absurdo.