Entrevista com Tim Vickery: O peso da história e o pragmatismo de Ancelotti
O jornalista Tim Vickery, que deixou a Inglaterra para morar no Rio de Janeiro em 1994, observa de perto a relação dos brasileiros com a seleção. Segundo ele, a memória dos times que conquistaram três Copas entre 1958 e 1970 alimenta um sentimento de superioridade e a ideia de que o Brasil deve ganhar todas. Mas essa mesma nostalgia frustra estrangeiros admiradores quando o time não repete o nível do passado.
O choque cultural entre Ancelotti e a torcida brasileira
Vickery compara o técnico italiano a um médico que chega com Band-Aid e o coloca no lugar certo. "Ancelotti é pragmático e nunca teve a pretensão de mudar a filosofia da equipe", afirma. Na Copa atual, o Brasil evoluiu: o melhor jogo foi contra o Japão, o segundo melhor contra a Escócia. "Em torneios, você não precisa ser o melhor time o tempo todo. Precisa ser o melhor no momento certo", diz.
Raiva e sensação de perseguição
"Existe muita raiva e uma sensação constante [entre os brasileiros] de que 'o mundo está contra nós'. Isso contrasta muito com a imagem internacional do Brasil como um país alegre", afirma Vickery. Ele ressalta que as críticas à seleção atual são, no fundo, uma reverência às grandes seleções do passado, especialmente a de 1970.
O mito da pureza futebolística
Vickery explica que a seleção de 1970 marcou o imaginário global, estabelecendo o Brasil como a terra da pureza futebolística. "Não é só que ganhava, era como ganhava. Ganhava sem truques, sem sujeira." Hoje, quando o Brasil trata a bola no meio-campo de forma diferente ou quando jogadores caem em campo, surge a comparação. As dancinhas nas comemorações geraram debate: para estrangeiros, parecia humilhação; para brasileiros, parte da cultura.
Pressão e tradição: o peso de ser hexacampeão
"A tradição pode inspirar, mas também pode atrapalhar", diz Vickery. Ele lembra que o Brasil é a única grande potência que sediou duas Copas e não venceu nenhuma. "A pressão pesa muito." Em 2014, a Alemanha provavelmente venceria aquele Brasil na maioria das vezes, mas nunca seria 7 a 1 sem toda a pressão emocional de uma Copa em casa.
Brasil x Inglaterra: possível confronto nas quartas
Vickery analisa que a França está um patamar acima de todos, mas o Brasil pode vencer qualquer seleção. "O próprio Ancelotti sabe que existem várias equipes que podem derrotar o Brasil, mas também sabe que o Brasil pode vencer qualquer uma delas." Se a Inglaterra eliminasse México, Brasil e Argentina em sequência, seria a maior campanha da história inglesa.
Força dos clubes brasileiros não se traduz na seleção
"Hoje existe uma separação muito grande entre o futebol doméstico e o futebol de seleções", explica Vickery. Muitos dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro nem brasileiros são. A força da liga nacional não se reflete automaticamente na força da seleção.
Comparação com a Argentina e o debate Messi x Pelé
Vickery compara a torcida argentina, mais orgânica, com a brasileira, que precisa circular pelo país para construir identidade. Sobre Messi e Pelé, ele diz: "Fora do Brasil, uma eventual conquista argentina consolidaria a ideia de que Messi superou Pelé. Eu ainda escolheria Pelé. Pelé ajudou a transformar a Copa no maior evento esportivo do planeta. Todos nós moramos numa casa que Pelé construiu."



