Ultradireita na América Latina: ascensão radical e risco à democracia
Ultradireita na América Latina: ascensão radical e risco

A América do Sul vive um superciclo eleitoral em que candidatos da direita saíram, em sua maioria, vitoriosos. Os últimos foram Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. Seus pares comemoraram o que chamam de “onda azul” na região, mas o especialista Cristóbal Rovira Kaltwasser alerta para diferenças cruciais para estes novos líderes e os da chamada direita tradicional que até então predominavam.

O que define a ultradireita?

“Esses atores defendem ideias de direita de forma muito mais radical do que a direita convencional; mas — e este é o segundo ponto vital — mantêm uma relação ambivalente ou de confronto com o sistema democrático”, aponta o cientista político chileno. Kaltwasser é diretor do Laboratório para o Estudo da Ultradireita e publicou este ano, em conjunto com outros cientistas políticos, o livro “The Far Right in Latin America” (A Ultradireita na América Latina, em tradução livre). O livro está disponível de forma gratuita no site da Universidade de Cambridge.

Como chegamos até aqui?

Em entrevista ao Estadão, ele esmiúça quem é esta nova direita que ascende na América Latina. A entrevista foi condensada para melhor compreensão: Comecemos pelo início. Como chegamos até aqui, em que temos que discutir a direita radical na América Latina?

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Trata-se de um fenômeno novo. Por muito tempo, nós, na América Latina, pensamos estar imunes ao surgimento de tais fenômenos. Sempre os vimos como algo específico da Europa ou dos Estados Unidos. No entanto, recentemente vimos esses fenômenos surgirem, e com grande força e rapidez. Ao contrário do contexto europeu, onde o processo foi muito gradual e levou bastante tempo, o que vemos na América Latina assemelha-se mais a um “Big Bang”. Começa com um caso e, de repente, muitos outros exemplos começam a aparecer.

Sob uma perspectiva latino-americana, acredito que o primeiro sinal muito claro foi a ascensão de Bolsonaro. Quando Bolsonaro surgiu no Brasil, havia uma tendência inicial de encarar o fato como um fenômeno exclusivamente brasileiro. Fundamentalmente, estava atrelado a uma situação econômica muito difícil, a escândalos de corrupção e a uma crise na segurança pública. As pessoas achavam que se tratava da “tempestade perfeita” que permitiu a ascensão de Bolsonaro, mas o viam como uma anomalia. Contudo, vários autores no Brasil começaram a argumentar o contrário: que se tratava de um fenômeno mais profundo, ligado a um processo de realinhamento eleitoral. Em outras palavras, existem bases de apoio dispostas a sustentar esse projeto político — aquilo que os brasileiros chamam de bolsonarismo. O que estamos percebendo agora é que essas mesmas bases de apoio existem também na Argentina, na Colômbia e em outros países latino-americanos.

Influência de Donald Trump

Donald Trump surgiu antes de Bolsonaro, e hoje ele declara apoio aberto a candidatos que depois saem vencedores. O quanto ele influencia essa mudança de pêndulo na região?

Acredito que desempenha um papel, mas não é o fator decisivo. Por que digo isso? Porque o próprio Donald Trump tende a se apresentar como a pessoa que explica esses fenômenos. Quando alguém como Abelardo vence uma eleição na Colômbia, Trump diz: “Bem, como eu o apoiei, é óbvio que ele ganharia”. Portanto, embora seja verdade que Trump exerce certo grau de influência, não devemos superestimá-la. Temos coletado dados de opinião pública e, de modo geral, Donald Trump não tem uma imagem positiva na América Latina. Mais da metade das pessoas na região o vê de forma desfavorável. O que é verdade, no entanto, é que os eleitores de ultradireita mais radicais obviamente veem com bons olhos uma figura como Donald Trump e apreciam seu apoio a vários candidatos em toda a América Latina. Em suma, eu diria que Donald Trump é influente, mas não é necessariamente a força decisiva que explica a ascensão desses movimentos de ultradireita em toda a região.

Direita tradicional vs. ultradireita

Antes de entrar no cenário atual, vamos falar um pouco de nomenclatura. O que define uma direita tradicional e uma ultradireita?

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Na ciência política, utilizamos tipicamente dois critérios para distinguir entre ambas. O primeiro é a natureza radical de suas posições políticas e o segundo — que é ainda mais importante — é a relação que mantêm com o sistema democrático. Os grupos de direita convencional promovem ideias de direita, tendem a ser socialmente conservadores e a defender o livre mercado, mas o fazem de maneira não excessivamente radical. Fundamentalmente, porém, eles defendem agendas políticas que operam dentro da estrutura da democracia liberal. Se considerarmos figuras como Mauricio Macri, na Argentina, ou Sebastián Piñera, no Chile, vemos líderes que eram claramente de direita — com inclinação para o conservadorismo social e políticas de livre mercado —, mas que respeitavam as regras do jogo democrático. O que caracteriza, então, a ultradireita? Esses atores defendem ideias de direita de forma muito mais radical do que a direita convencional; mas — e este é o segundo ponto vital — mantêm uma relação ambivalente ou de confronto com o sistema democrático. Até hoje, Donald Trump não aceitou sua derrota na eleição presidencial. Bolsonaro tentou um golpe de Estado porque se recusou a abrir mão do poder. Isso demonstra precisamente o que distingue os atores de ultradireita da direita convencional.

Por que a ultradireita está ganhando terreno?

O primeiro — e considero isso crucial — é que não estamos presenciando uma vitória dos partidos de direita convencionais. Pelo contrário, é a ultradireita que vem ganhando terreno. Por que isso é relevante? Porque frequentemente se afirma que a esquerda é a culpada pela ascensão da ultradireita. Embora a esquerda certamente enfrente desafios, a verdadeira questão é por que os partidos de direita convencionais não estão obtendo êxito. Há uma percepção de que os projetos da direita convencional estão entrando em colapso, ao passo que os movimentos de ultradireita estão em ascensão. Parte da resposta reside na percepção dos eleitores de que os partidos de direita convencionais falham em atender às demandas da população, enquanto os atores de ultradireita conseguem canalizar melhor essas demandas.

Outra parte da explicação é que, em grande parte da América Latina, as pessoas não estão votando apenas a favor da ultradireita, estão também votando contra quem está no poder. Tomemos a Argentina como exemplo clássico: por que Javier Milei teve um desempenho tão expressivo no segundo turno? Lembremos que ele obteve 30% dos votos no primeiro turno, mas conseguiu garantir 55% no segundo. Não se trata de 55% dos argentinos serem apoiadores da ultradireita, eles se viram diante de uma escolha: votar em Javier Milei ou votar no candidato governista, o Ministro da Economia, em um país que sofria com uma inflação de 100%. Em suma, os argentinos disseram: “Não quero isso, então vou votar na outra opção. Quero punir quem está no poder”. Assim, sob certos aspectos, a ultradireita consegue capitalizar esse sentimento de rejeição aos governantes. No entanto, é preciso ressaltar que isso não significa que todos os que votam neles subscrevam integralmente a ideologia defendida por esses atores de ultradireita. Alguns o fazem — penso particularmente naqueles que os apoiam no primeiro turno —, mas seu crescimento no segundo turno é impulsionado principalmente por esse desejo de punir os ocupantes dos cargos.

O voto é ideológico?

Ao analisar os dados de opinião pública — e, certamente, é difícil fazer generalizações para toda a América Latina devido às diferenças regionais —, não se observa uma mudança clara indicando que os eleitores estejam se tornando mais conservadores. Na verdade, em várias questões, particularmente as de natureza moral, os cidadãos latino-americanos têm se tornado mais progressistas. No entanto, uma coisa é certa: no que diz respeito à segurança pública, os cidadãos de toda a região geralmente a apontam como a questão mais crítica e apoiam políticas linha-dura, independentemente de sua inclinação política ser de esquerda ou de direita. Essa é justamente a bandeira levantada por figuras de ultradireita, que prometem implementar políticas duras e intransigentes para combater o crime. É por isso que Bukele é frequentemente visto como um modelo; atores políticos em vários países argumentam que “o modelo de El Salvador funcionou e é o que queremos implementar aqui”. Para resumir o atual ciclo eleitoral: o que presenciamos é uma rejeição ao governo vigente — não necessariamente uma rejeição à esquerda em si, embora a esquerda estivesse no poder na Colômbia e na Argentina antes de Milei. Trata-se de uma rejeição à administração atual, agravada pela questão da segurança — uma área em que a esquerda teve dificuldades para atuar de forma eficaz.

Futuro da América Latina

O que mais me preocupa — e sempre digo isso, pois marca uma diferença fundamental em relação à Europa — é o seguinte: se você se lembra, começamos nossa conversa observando que esses partidos surgiram na Europa ainda na década de 1980. Foi um processo muito gradual; a Frente Nacional da França, por exemplo, começou com apenas 3% ou 4% dos votos antes de evoluir para o atual movimento de Marine Le Pen, que conta com o apoio de 25% a 30% do eleitorado — mas isso levou 30 ou 40 anos. Ao longo desse processo — e até hoje —, os partidos de direita tradicionais na Europa geralmente mantiveram um cordão sanitário, recusando-se a colaborar com a ultradireita. Mas o que vemos na América Latina? Esses movimentos políticos geralmente ascendem criticando não apenas a esquerda, mas também a direita — a qual chamam, de forma depreciativa, de “direita covarde”. Sua retórica é voltada contra todo o establishment político: a “casta”. No entanto, quando essas figuras chegam ao segundo turno das eleições, os partidos de direita tradicionais cometem um erro crucial: depois de terem estado em conflito com elas, declaram repentinamente: “Nós os apoiamos incondicionalmente”. Então, qual é o receio? Continuará existindo uma direita tradicional? Meu receio é que a direita tradicional possa desaparecer. E sabemos que, para que os sistemas democráticos perdurem, precisamos desses partidos de direita tradicionais — atores políticos que mobilizam eleitores conservadores em torno de questões econômicas e culturais, mas que o fazem dentro dos limites do sistema democrático. Se esses atores desaparecerem e restarmos apenas com a ultradireita, isso será uma péssima notícia para os sistemas democráticos. Esse é o maior receio que vejo para o futuro próximo na América Latina.