Análise: O populismo vai devorar a si mesmo e ameaça a estabilidade
Populismo vai devorar a si mesmo, alerta FT

A vaga populista que se espalhou por democracias ocidentais e emergentes está começando a devorar seus próprios criadores. Segundo uma análise publicada pelo jornal britânico Financial Times, o movimento que prometia devolver o poder ao povo enfrenta agora uma contradição fatal: para permanecer no governo, precisa do mesmo establishment que tanto atacou; para manter o eleitorado, precisa entregar resultados que o discurso anti-sistema nunca planejou.

O paradoxo do poder

O texto lembra que o populismo não é uma ideologia clássica, mas um estilo político baseado na divisão entre "nós" e "eles". Essa retórica funciona muito bem na oposição, quando o líder pode prometer soluções mágicas para inflação, corrupção e imigração. No governo, porém, o inimigo deixa de ser apenas a elite e passa a incluir a realidade econômica, os organismos internacionais e até os aliados hesitantes.

Com o poder, o populista se vê obrigado a tomar decisões concretas. Tarifas comerciais, cortes de gastos, endurecimento de fronteiras e conflitos diplomáticos geram consequências imediatas. Quando os efeitos colaterais aparecem, a culpa deixa de recair exclusivamente sobre o sistema e passa a atingir o próprio governante. Esse desgaste abre espaço para uma nova onda de outsiders — que, por sua vez, prometerão romper com os atuais populistas.

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Três frentes de desgaste

A análise cita ao menos três casos emblemáticos do fenômeno. Na Itália, a premiê Giorgia Meloni, originária de um partido pós-fascista, moderou seu discurso para agradar Bruxelas e a comunidade financeira, enfurecendo a base radical. Na Argentina, o presidente Javier Milei aplica um ajuste fiscal severo que reduziu a inflação, ao custo de uma recessão profunda e de um aumento da pobreza. Nos Estados Unidos, o retorno de Donald Trump à Casa Branca expõe a dificuldade de governar por decreto em um país dividido — e as pesquisas já indicam desgaste entre os eleitores independentes.

Esses exemplos mostram que o populismo, ao chegar ao poder, perde o principal combustível: o estado permanente de protesto. Quando o líder convoca a "maioria silenciosa" para apoiar medidas impopulares, o entusiasmo inicial se transforma em cansaço. As pesquisas de opinião em várias partes do mundo apontam queda de popularidade justamente entre os grupos que promoveram a eleição dessas lideranças.

A economia como teste decisivo

Historicamente, o populismo tende a fracassar quando é obrigado a equilibrar promessas e cofres públicos. O Financial Times destaca que o eleitor populista tolera arroubos retóricos, mas cobra resultado na economia. A promessa de "drenar o pântano" esbarra em uma máquina estatal que não mudou de estrutura. A promessa de "nós primeiro" esbarra em cadeias de produção globalizadas e na dependência de capital estrangeiro. O resultado é um sentimento de traição que alimenta discursos ainda mais radicais.

O texto argumenta que o ciclo é autofágico: o populismo não é derrotado pela oposição tradicional, e sim pela própria incapacidade de cumprir promessas impossíveis. Cada nova crise cria as condições para outro salvador da pátria, que repetirá o mesmo roteiro com um verniz diferente. Esse movimento produz uma alternância de outsiders que, na prática, desestabiliza instituições, corrompe a confiança nas eleições e enfraquece a democracia representativa.

Risco para a ordem global?

A análise do veículo britânico faz um alerta: se populistas continuarem se sucedendo no poder sem conseguir governar, o desencanto pode se voltar para a própria democracia. Em vez de fortalecer os partidos tradicionais, a autofagia populista pode radicalizar ainda mais o eleitorado, tornando o sistema político volátil e imprevisível.

Países em desenvolvimento são vistos como os mais expostos. A falta de instituições fortes e de uma imprensa independente faz com que o populismo se transforme em uma espiral de crises, com idas e vindas de políticas econômicas que afastam investidores e agravam o desemprego. O resultado é um retrocesso material que alimenta mais ressentimento e mais apoio a soluções autoritárias.

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O texto conclui que a única saída seria o populismo moderar-se e abraçar reformas estruturais — algo que, pela própria natureza do movimento, soa como traição. A história das últimas décadas sugere que, assim como as ondas de populismo clássico dos anos 1930, o movimento atual tende a entrar em colapso quando seu líder falha em dominar uma crise econômica. A diferença é que, hoje, a velocidade da informação e a desconfiança nas elites aceleram o ciclo: a decepção chega mais rápido — e o próximo messias também.