O pesquisador sorocabano Giovani Tozi foi agraciado com uma menção honrosa da International Society for Humor Studies (ISHS), a principal associação mundial de estudos do humor, por sua tese de doutorado sobre o processo criativo de Jô Soares. A premiação ocorreu durante a 36ª Conferência da entidade, realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), entre 6 e 10 de julho, que reuniu pesquisadores de mais de 30 países.
Reconhecimento internacional inédito
O evento marcou os 50 anos do primeiro encontro interdisciplinar sobre estudos do humor e foi realizado pela primeira vez no Brasil, bem como no chamado Sul Global. A tese de doutorado de Tozi, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reúne observações feitas ao longo de mais de uma década ao lado de Jô Soares, durante a qual trabalhou como ator, assistente de direção, produtor executivo e colaborador artístico do apresentador e diretor.
Ao g1, Giovani revelou que o artigo "Humor as Construction: A Possible Method Drawn from the Practice of Jô Soares" ("O Humor como Construção: Um Possível Método Extraído da Prática de Jô Soares", em português) é resultado direto da convivência profissional e pessoal com Jô Soares. A partir de 2012, o pesquisador passou a integrar a equipe do humorista, experiência que deu origem ao seu mestrado e, posteriormente, ao doutorado.
Primeira pesquisa acadêmica sobre o teatro de Jô Soares
"Ele é reconhecido como um dos maiores artistas brasileiros, mas seus procedimentos de criação e direção teatral ainda não haviam sido organizados de maneira sistemática. Minha dissertação de mestrado e minha tese de doutorado representam as primeiras pesquisas acadêmicas dedicadas especificamente ao estudo de seu trabalho teatral e de sua construção do humor", afirma Tozi. "Este trabalho começou oficialmente em 2014, com meu ingresso no mestrado, sob orientação da professora Neyde Veneziano, e ganhou continuidade em 2020, durante o doutorado, sob orientação do professor Marcelo Lazzaratto". "Tive a felicidade de ser acompanhado por pesquisadores e artistas que admiro profundamente, tanto no palco quanto na academia. Essa combinação tornou o diálogo extremamente rico, e fez com que todo o processo de pesquisa fosse não apenas muito frutífero, mas também profundamente prazeroso", completa o pesquisador.
Um 'possível método' para construir humor
A proposta busca demonstrar que o humor pode ser compreendido como uma construção cênica baseada na comunicação entre ator e público, oferecendo uma nova perspectiva para artistas e pesquisadores interessados na linguagem do humor. O principal objetivo da pesquisa foi responder a uma pergunta específica: como Jô Soares construía o humor dentro da sala de ensaio? A partir da análise de documentos, entrevistas, processos criativos e da observação direta do trabalho do humorista, Giovani identificou sete procedimentos recorrentes utilizados por ele para preparar atores e construir cenas cômicas.
Apesar disso, o pesquisador faz questão de definir a proposta como um "possível método", evitando tratá-la como um sistema fechado. "A palavra 'possível' é muito importante para mim. Primeiro, porque Jô nunca reuniu esses procedimentos e declarou: 'Este é o meu método'. O que fiz foi acompanhar seu trabalho, analisar documentos, entrevistas e processos de criação e perceber que determinados procedimentos apareciam de maneira recorrente", explica o pesquisador. "Ela também é importante porque este ainda é um trabalho em construção, deliberadamente aberto. As artes da cena já contam com métodos amplamente consolidados, como o de Stanislavski ou a biomecânica de Meyerhold, mas minha pesquisa segue outra lógica. Não pretendo afirmar um método definitivo, e sim propor uma leitura possível sobre o processo criativo de Jô Soares", completa Tozi.
Procedimentos identificados
Segundo ele, a escolha também representa um convite para que outros pesquisadores ampliem ou até contestem sua interpretação. "Meu desejo é que a tese não seja um ponto final, mas um ponto de partida para que a obra de Jô seja cada vez mais estudada", diz. Entre os procedimentos identificados estão a leitura coletiva do texto, a escuta entre os atores, o estudo individual das falas, a identificação das chamadas "frases fundamentais", a busca pela "chave" de cada frase e a construção das pausas e ênfases responsáveis pelo efeito cômico.
Mais de uma década ao lado de Jô
A relação entre pesquisador e artista começou em 2012, quando Giovani passou a integrar a equipe de Jô Soares. Ao longo dos anos, acompanhou ensaios, montagens e processos criativos, experiência que acabou se transformando primeiro em uma dissertação de mestrado e, posteriormente, na tese de doutorado. "Jô abriu seus arquivos, concedeu entrevistas e acompanhou todo esse percurso com enorme entusiasmo. Receber esse reconhecimento poucos meses após defender a tese é algo que jamais imaginei", conta. Segundo o pesquisador, a tese procura demonstrar que a comicidade não acontece apenas por inspiração, mas também é construída por meio de escolhas conscientes de linguagem, ritmo e comunicação entre ator e público. "O artigo nasceu da convivência direta com Jô Soares durante mais de dez anos. Tive o privilégio de acompanhar ensaios, leituras de mesa e montagens. Mais do que isso, tive a honra de ser seu amigo", afirmou.
Ao final da apresentação na conferência, o pesquisador relembrou uma frase escrita por Jô Soares em sua autobiografia, na qual o apresentador dizia que gostaria de ter seu patrimônio medido em sorrisos. "Espero que essa pesquisa ajude a manter viva essa corrente de sorrisos que ele criou ao longo da vida", diz a frase. Inspirado por uma das últimas reflexões de Jô, Giovani também fez uma adaptação da frase do humorista. "Jô dizia que só o humor pode salvar o Brasil. Depois desta semana convivendo com pesquisadores do mundo inteiro, ouvindo sobre novas mídias e IA, eu ouso fazer uma adaptação: só o humor pode salvar a humanidade", finaliza.
Humor além da espontaneidade
Ao longo da pesquisa, Giovani afirmou ter descoberto que a comicidade construída por Jô Soares estava longe de depender apenas do improviso ou do talento natural. "O que mais me surpreendeu foi perceber a enorme precisão que existia por trás de uma aparência de espontaneidade. Quanto mais eu estudava, mais percebia que o humor de Jô não era construído apenas pela piada. Ele era construído pela inteligência com que organizava o caminho até ela", afirmou o pesquisador. "Também me chamou atenção a coerência que atravessa toda a sua trajetória. Mesmo trabalhando em linguagens muito diferentes, como televisão, teatro, literatura e entrevistas, reaparecem os mesmos princípios: curiosidade, escuta, domínio da linguagem, atenção ao detalhe e uma compreensão muito sofisticada da expectativa do público", completou.
Bastidores dos ensaios
Durante o período ao lado de Jô Soares, Giovani acompanhou de perto o processo de criação do humorista. Segundo ele, os ensaios aconteciam em um espaço construído especialmente para esse fim, onde o diretor chegava diariamente com profundo domínio do texto, mas sempre disposto a experimentar novas ideias. Uma das histórias lembradas pelo pesquisador aconteceu durante os ensaios de uma peça, em 2012. Na ocasião, o ator Marcos Veras sugeriu utilizar a prótese da perna de seu personagem para aplicar um golpe de capoeira durante uma cena. "A sala inteira caiu na gargalhada. Jô riu muito e imediatamente disse: 'Vamos manter isso'. Aquela invenção acabou se tornando o momento de maior riso do espetáculo. Isso mostra como ele tinha a inteligência e a humildade de incorporar imediatamente uma ideia melhor quando ela surgia", relembrou.
Reconhecimento internacional
Para Giovani, o prêmio representa não apenas um reconhecimento pessoal, mas também um passo importante para ampliar o debate acadêmico sobre a obra de Jô Soares. "Receber essa honraria representou a confirmação de que o pensamento e a obra de Jô possuem força para dialogar com os estudos internacionais sobre o humor", afirmou. Ele conta que pesquisadores de países como Japão e Eslováquia demonstraram interesse pelos procedimentos apresentados durante o congresso. "Percebi que a maneira como Jô pensava a construção da cena despertava interesse em pesquisadores de áreas e países completamente distintos. Isso me fez compreender que sua contribuição vai muito além da história do humor brasileiro", disse o pesquisador.
Na avaliação do pesquisador, apesar da relevância de Jô Soares para a cultura brasileira, sua obra ainda ocupa pouco espaço na produção científica. "Meu mestrado e, agora, meu doutorado representam as primeiras pesquisas acadêmicas dedicadas especificamente ao teatro e ao humor de Jô Soares. Espero que esse trabalho ajude a abrir caminho para novas pesquisas e contribua para preservar seu legado para as próximas gerações", finaliza Tozi.



