Nhô João de Camargo: 168 anos de fé e legado em Sorocaba
Nhô João de Camargo: 168 anos de fé e legado

Há 168 anos, em 16 de maio de 1858, nascia em uma fazenda de escravizados no bairro de Cocais, em Sarapuí (SP), aquele que se tornaria uma das figuras mais emblemáticas da religiosidade popular no interior paulista: Nhô João de Camargo. Batizado em 5 de julho daquele ano, data que até hoje é celebrada em sua memória, João de Camargo deixou um legado de solidariedade e fé que atravessa gerações.

Das origens à liberdade: a formação de um líder

João de Camargo recebeu o sobrenome do fazendeiro que o escravizava, Luiz de Camargo Barros, casado com Ana Tereza Barros. Foi batizado na Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores de Sarapuí, conforme relata Adriano Molina, presidente da capela de João de Camargo em Sorocaba. "Ele gostava de comemorar seu aniversário no dia 5 de julho", explica Molina.

O historiador Wellington Ataíde conta que, ainda na fazenda, João aprofundou, ao lado da mãe, os conhecimentos sobre ervas medicinais e práticas curandeiras ancestrais. Após ser libertado, percorreu a região de Itapetininga até se estabelecer em Sorocaba, num período em que a febre amarela causava muitas mortes. "Nisso, entra Monsenhor João Soares, que foi um dos poucos padres que ficaram na cidade tentando cuidar da situação", diz Ataíde.

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A fundação da capela e a missão espiritual

João se firmou em Sorocaba em 1907. Costumava andar pela cidade, especialmente pelo Centro e pela atual Avenida Barão de Tatuí, onde hoje está localizada sua capela, tombada como patrimônio histórico. Fazia paradas frequentes na Cruz de Alfredinho, erguida após a morte de um jovem em um acidente a cavalo. "No interior, há o hábito de colocar uma cruz no local para lembrar aquela morte, mas também está relacionada à cultura de origem africana de João de Camargo, principalmente os bantos. Eles têm um culto aos ancestrais", destaca o historiador.

Em uma visita à cruz, Nhô João teve uma visão com Alfredinho, que revelou sua missão: fundar a Igreja Misteriosa da Água Vermelha. Ataíde contextualiza que isso ocorreu no início da Primeira República, quando Sorocaba passava por um processo de modernização e "embranquecimento" que buscava apagar o legado afro-caipira. "É interessante ver João de Camargo surgindo justamente nesse período", observa.

Repressão e estratégia de sobrevivência

A popularidade de Nhô João cresceu rapidamente. Apelidado de "papa negro", ele incomodou as elites locais. Em 1913, foi preso sob acusações de curandeirismo. "Não havia o porquê de trocar para o moderno se tinha ele como ele. João era abertamente o alvo", pontua Ataíde. Para evitar o fechamento da capela, João se aproximou do espiritismo, religião mais aceita na época. Em 1921, formou a Associação Espírita e Beneficente Capela Nosso Senhor do Bonfim, que permanece até hoje. "Ele precisou trazer uma fachada mais moderna e aceita pela sociedade. A associação é uma estratégia que outros povos utilizaram para se proteger da polícia, da violência e do racismo religioso", explica o historiador.

Legado comunitário e cultural

Além da religião, Nhô João criou uma estrutura ao redor da capela, com hotel e restaurante, para receber visitantes. Fundou a Banda São Luiz, que gerava renda para a população negra. Entre as décadas de 1920 e 1930, construiu uma escola para crianças. "Ele era uma liderança comunitária e negra que estava atenta a diversas questões. Se torna um líder muito carismático e a cidade se torna obrigada a respeitar a autoridade dele", afirma Ataíde.

João de Camargo morreu em 28 de setembro de 1942, aos 84 anos. A capela foi tombada como patrimônio histórico em 1995 pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Paisagístico de Sorocaba (CMDP).

Milagres e devoção que perduram

Adriano Molina, presidente da capela, relata que o local recebe visitas diariamente. "João dizia que a igreja foi feita sob os pilares da pedra, da água e da verdade. Ele praticava exatamente acolher e dar o amor e a caridade às pessoas, assim como Jesus ensinou. O que é verdadeiro não se morre com o tempo", reforça.

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Molina conta histórias de milagres atribuídos a João, como a obtenção de verba para a construção do Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil (Gpaci), em Sorocaba. Segundo ele, um presidente da capela pediu ajuda a João de Camargo para pagar R$ 300 mil devidos. Dias depois, um funcionário da Receita Federal apareceu no escritório e, após conhecer o projeto, destinou verba retida para a entidade. "Na semana seguinte, o dinheiro caiu na conta", detalha.

Outro relato envolve uma idosa que encontrou o corpo de um familiar após seguir orientação de João: acender uma vela sobre uma caixa de papelão e colocá-la para boiar no Rio Sorocaba. O corpo foi encontrado onde a vela parou.

Celebração dos 168 anos

Para celebrar os 168 anos de João de Camargo, a capela realiza programação especial neste domingo (5), das 8h às 16h, com expositores, apresentações artísticas e culturais. A Capela Nhô João de Camargo fica na Avenida Barão de Tatuí, 1083, no Jardim Paulistano, em Sorocaba.