O presidente argentino Javier Milei escreveu nesta quarta-feira, 22, que “ter inimigos significa que você defendeu algo”, atribuindo a frase erroneamente a Winston Churchill. Em seguida, corrigiu a citação, indicando que a fala pode ser do escritor francês Victor Hugo. A postagem faz parte de uma série de publicações em que Milei aponta uma suposta campanha “anti-Argentina” nas redes sociais durante a Copa do Mundo, alimentada pela oposição kirchnerista.
Milei aponta kirchnerismo como responsável por campanha contra o país
O presidente dedicou os últimos dias a compartilhar postagens sobre os ataques à seleção argentina. Membros do governo, deputados de seu partido e pesquisadores de think tanks libertários já apontavam o kirchnerismo como causador do que chamaram de “batalha cultural” contra o governo libertário.
“O kirchnerismo tem sido uma peça fundamental da campanha anti-Argentina: validaram o ‘wokismo’ que hoje nos acusa de racismo; promoveram a ideia de que os jogadores eram desprovidos de classe; fomentaram o ódio contra Messi; e alimentaram, dentro da própria Argentina, a mentira de que a Seleção Nacional venceu graças aos árbitros e aos favores da FIFA”, escreveu Agustín Laje, fundador do think tank libertário Fundação Faro, em postagem compartilhada por Milei, que escreveu em letras garrafais: “absolutamente certo”.
Acusações de racismo e favoritismo marcam a Copa do Mundo
Durante a Copa do Mundo, afloraram acusações de racismo por parte da torcida argentina, omissão dos jogadores – especialmente Lionel Messi – e suposto favoritismo da FIFA e dos árbitros com a seleção alviceleste. Torcedores contra a Argentina basearam-se em episódios específicos para estereotipar uma nação inteira.
As postagens foram amplificadas por celebridades como o ator Samuel L. Jackson, que orientou pessoas negras a não torcerem pelo “país racista”, a atriz pornô e influenciadora Mia Khalifa, e a cantora Rosalía, que pediu desculpas. O sentimento anti-Argentina atingiu o ápice nos dois últimos jogos da seleção de Messi, contra a Inglaterra e contra a Espanha. A Argentina terminou como vice-campeã no último domingo, 19.
Milei fala em “guerra híbrida” e campanha orquestrada
Outra postagem compartilhada pelo presidente sugere que o país está vivendo “uma guerra híbrida” alimentada pelo Irã. Ele também retuitou vídeos de influenciadores apontando uma suposta campanha orquestrada por meio de contas falsas financiadas por centenas de milhares de dólares para prejudicar o governo.
“Milei tornou-se um avatar da guerra cultural global que divide o Ocidente. Consequentemente, a esquerda internacional aponta e aposta para que a Argentina fracasse no que for e se instale uma opinião desfavorável do país”, escreveu outra postagem compartilhada pelo presidente. “A Copa do Mundo foi a desculpa e a plataforma ideal para montar essa campanha absurda anti-Argentina. Isso não é por Messi nem tampouco pelo futebol. Claramente há uma motivação política por trás dessa campanha”.
Pesquisa identifica quatro narrativas contra a Argentina
Uma pesquisa da consultoria Ad Hoc publicada pelo jornal argentino Clarín identificou as postagens contra a Argentina em quatro narrativas: a caracterização de “país racista”, a proximidade diplomática com Israel, uma “ArgenFIFA” para acusar fraude e “uma campanha anti-Argentina que o governo supostamente estaria tentando consolidar”, escreveu o jornal. Nas redes, há quem alimente a ideia de que parte das postagens partiram de contas que apoiam a própria Casa Rosada, mas não há provas disso.
“Lista completa e ordenada das maldades do kirchnerismo contra a Seleção Argentina… ou seja, contra a Argentina. Não permitamos que agora finjam que são idiotas”, escreveu a deputada do A Liberdade Avança Lilia Lemoine, também compartilhada por Milei. “Nos odeiam a metade esquerdista de cada país do terceiro mundo. Surpreendentemente o mais pobre, nos ama (Bangladesh)”, escreveu a mesma deputada, referindo-se à torcida dividida de Bangladesh entre Argentina e Brasil.
Oposição reage de forma limitada
Os principais nomes da oposição fizeram postagens limitadas após a final da Copa do Mundo, a maioria agradecendo à seleção alviceleste. Cristina Kirchner, líder do kirchnerismo que se encontra em prisão domiciliar, faz raras postagens. Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires, parabenizou a seleção pelo resultado, assim como Wado de Pedro.
A Argentina passará por eleições presidenciais em outubro de 2027, quando Milei deve tentar a reeleição. A oposição, contudo, ainda não dá indícios de quem deve apontar como seu candidato. Um dos nomes mais cotados é de Kicillof.



