Mbappé vs Le Pen: futebol e política se chocam na França
Mbappé vs Le Pen: futebol e política se chocam na França

A seleção francesa de futebol, capitaneada por Kylian Mbappé, avançou às semifinais da Copa do Mundo e enfrentará a Espanha por uma vaga na final. Paralelamente, a líder da extrema direita Marine Le Pen amplia vantagem nas pesquisas de opinião, após ser autorizada a concorrer à Presidência — mesmo com tornozeleira eletrônica — pela quarta vez, em abril do próximo ano.

Seleção multicultural versus discurso anti-imigração

Tradicionalmente, os "Les Bleus" e a extrema direita francesa ocupam lados opostos, num relacionamento marcado por ressentimentos. O multiculturalismo da bem-sucedida seleção, que disputou as finais das últimas duas Copas, contrasta com a retórica anti-imigração do partido Reunião Nacional (RN), sob a liderança de Le Pen e seu vice, Jordan Bardella.

O time reflete um país moldado pela imigração. Dos 26 convocados, apenas três nasceram fora da França. A maioria tem ascendência de países colonizados e vem de periferias. O pai de Mbappé nasceu em Camarões; a mãe tem origem argelina. O atacante, porém, é francês de carteirinha, como faz questão de ressaltar.

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Mbappé convoca jovens a votar contra extremismo

Antes da Copa, Mbappé usou sua influência para convocar os jovens a votar em massa nas eleições. Em entrevista à revista Vanity Fair, descreveu a ascensão de partidos de extrema direita como uma catástrofe: "Eu sei o que isso significa e que tipo de consequências pode ter para o meu país quando esse tipo de gente assume o controle. Então, somos cidadãos. Temos o direito de expressar nossa opinião como qualquer outra pessoa."

Outros jogadores, como Ousmane Dembélé, Jules Koundé e Marcus Thuram, fazem coro ao ativismo do capitão, irritando Le Pen e Bardella. Mas, diante do forte desempenho de uma seleção campeã, fica difícil confrontar seus craques.

Estratégia de Le Pen: criticar o ativismo, não a diversidade

A extrema direita de hoje evita criticar a diversidade dos jogadores, como fez há três décadas Jean-Marie Le Pen, pai de Marine. Favorita para suceder Emmanuel Macron, Le Pen prefere qualificar os atletas de elitistas e distantes da realidade dos franceses: "Essa tendência de atores, jogadores de futebol e cantores de dizer aos franceses como eles devem votar — principalmente aqueles que ganham 1.300 euros por mês, enquanto eles próprios são milionários ou até bilionários — está começando a ser mal-recebida em nosso país", afirmou.

No entanto, a alegação de Le Pen não se sustenta. Os franceses abraçam seus craques, sobretudo em tempos de glória. Mbappé doa integralmente seus prêmios e bônus da seleção para instituições de caridade: "Não preciso ser pago para defender as cores do meu país", argumenta.

Identidade francesa em jogo

Para o colunista Philippe Bernard, do jornal Le Monde, a seleção relembra ao país sua diversidade e a "grande mistura" presente na sociedade. "Quanto mais Kylian Mbappé e seus companheiros acumularem sucessos na Copa do Mundo, mais a identificação da França com sua seleção, um coletivo etnicamente diverso e globalmente celebrado, deverá ser motivo de alegria. A discrepância entre uma França diversa e vitoriosa e as tristes paixões identitárias do partido de extrema-direita RN também deverá se tornar mais evidente", escreveu.

Le Pen e Bardella gostariam que Mbappé e seus colegas apenas jogassem e se mantivessem apolíticos, como ocorre em outras seleções. Na equipe francesa, contudo, o multiculturalismo funciona como arma, e o silêncio é inviável: "Você pode ser um jogador, pode ser uma estrela internacional, mas acima de tudo, você é um cidadão", conclui Mbappé.

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