A campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou nos últimos dias a interlocução com agentes do mercado financeiro, em uma tentativa de apresentar suas propostas econômicas e reduzir as incertezas que cercam uma eventual volta ao Palácio do Planalto. Segundo fontes da campanha, a equipe econômica do petista já realizou ao menos três reuniões com representantes de grandes bancos e gestoras de recursos desde o início de julho.
Encontros com banqueiros e gestores
Os encontros, que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro, contaram com a participação do economista Guilherme Mello, coordenador do programa econômico de Lula, e do ex-ministro Aloizio Mercadante, que integra o núcleo da campanha. Em uma das reuniões, realizada na última quarta-feira, Lula participou por videoconferência e respondeu a perguntas sobre política fiscal, reforma tributária e autonomia do Banco Central.
“Foi um diálogo franco e produtivo. O ex-presidente deixou claro que seu compromisso é com a responsabilidade fiscal e com o crescimento econômico com inclusão social”, afirmou um dos participantes, que pediu anonimato. A campanha de Lula tem se esforçado para mostrar que não haverá ruptura com o arcabouço fiscal vigente, embora defenda mudanças pontuais.
Propostas econômicas em debate
Entre os pontos apresentados, a equipe de Lula destacou a intenção de simplificar o sistema tributário, com a unificação de impostos sobre consumo, e de fortalecer o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, sem descuidar do controle de gastos. Também foi mencionada a defesa de uma política industrial ativa, com incentivos a setores estratégicos como energia limpa e tecnologia.
“O mercado quer previsibilidade. Estamos mostrando que o Brasil pode crescer de forma sustentável, com responsabilidade social e fiscal”, disse Mello, em entrevista após um dos encontros. A estratégia de Lula é contrastar sua abordagem com a do atual governo, que, segundo ele, promoveu uma política econômica “desastrosa” e aumentou a dívida pública.
Impacto nas pesquisas e na confiança
O movimento ocorre em meio à consolidação de Lula como líder nas pesquisas de intenção de voto. Pesquisa Datafolha divulgada na semana passada mostrou o petista com 48% das intenções de voto, contra 29% do presidente Jair Bolsonaro (PL). Apesar da vantagem, a campanha de Lula sabe que a desconfiança do mercado pode ser um obstáculo, especialmente em relação à dívida pública, que já ultrapassa 80% do PIB.
A equipe econômica de Lula também se reuniu com representantes de fundos de pensão e de investidores estrangeiros, em uma tentativa de ampliar a base de apoio internacional. “Precisamos mostrar que o Brasil voltará a ser um destino seguro para investimentos”, destacou Mercadante.
Próximos passos
A campanha planeja novos encontros nas próximas semanas, incluindo uma reunião com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). A expectativa é que, até o final de agosto, o programa econômico completo de Lula seja divulgado, com metas fiscais e propostas de reformas estruturais. “Vamos detalhar cada ponto para que não haja dúvidas sobre o nosso projeto de país”, afirmou Mello.
O mercado, porém, segue cauteloso. Analistas apontam que, apesar dos acenos, o histórico do PT com a política econômica gera apreensão. “O discurso é um, a prática pode ser outra. Vamos esperar para ver”, comentou um gestor de um grande fundo, que preferiu não se identificar. A campanha de Lula, por sua vez, aposta na experiência do ex-presidente para convencer os céticos.



